Estranha
pergunta
Humberto
de Campos, conhecido como Irmão X, através da mediunidade de Chico Xavier,
legou-nos várias obras de preciosas lições, destacando o conhecido, Brasil,
coração do mundo, pátria do Evangelho. Ao mesmo tempo, aparece também com
contribuição individual em tantas outras obras do médium mineiro.
Numa
delas, Caminhos de Volta, há uma página denominada - Estranha pergunta -,
narrando o caso de Salomão Torres, que deve merecer demoradas reflexões de
nossa parte. Aborda a matéria sobre família e casamento, laços afetivos e
fidelidade conjugal. Assuntos que em razão das naturais incompreensões e
discordâncias, são normalmente motivos de calorosas discussões.
Reconheço,
são assuntos sensíveis, que por nos tocarem a alma mais de perto, sempre que
possível, devem nos fazer recordar da conhecida frase dita por Jesus aos
Escribas e Fariseus de todos os tempos, “Aquele que estiver sem pecado, atire a
primeira pedra” (João 8:7).
Antes, porém, de reproduzir a
página do Irmão X, julgamos conveniente transcrever três questões de O LIVRO
DOS ESPÍRITOS, para auxiliar nossa melhor compreensão.
695. Será contrário à lei da
Natureza o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?
R. “É um progresso na marcha
da Humanidade.”
696. Que efeito teria sobre a
sociedade humana a abolição do casamento?
R. “Seria uma regressão à vida
dos animais.”
O estado de natureza é o da
união livre e fortuita dos sexos. O casamento constitui um dos primeiros atos
de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna
e se observa entre todos os povos, se bem que em condições diversas. A abolição
do casamento seria, pois, regredir à infância da Humanidade e colocaria o homem
abaixo mesmo de certos animais que lhe dão o exemplo de uniões constantes.
697. Está na lei da Natureza,
ou somente na lei humana, a indissolubilidade absoluta do casamento?
R. “É uma lei humana muito
contrária à da Natureza. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da
Natureza são imutáveis.”
Feita este registro da obra
básica do Espiritismo, vamos ao caso de Salomão Torres.
A ESTRANHA PERGUNTA
Este o
remate das considerações do amigo Salomão Torres, recentemente desencarnado:
— Imaginem vocês. Estou aqui
ainda naquela impressão de tombo e asfixia. Enfarte, é o que ouvi de muitos,
quando o corpo já se via naquela de estátua. Traços rígidos e frieza de pedra.
Para mim, o enfarte era a soma de mil pequenas e grandes angústias misturadas
de indagações incomunicáveis e sem resposta.
O
grupo escutava em silêncio e Salomão avançou:
— Bem, vocês sabem. Agora na Terra, sexo é a onda. Liberdade para cá. Liberdade
para lá. Sexo livre. Apelos ao sexo. Publicações especializadas de amor às
avessas. Espetáculos de “strip-tease”. Afinal, sempre acompanhei os tempos. E
lá me fui também para a crista dos casos. Esposa doente e quatro filhos
taludos. Dois rapazes esbanjões e duas meninas bonitas. A primogênita, hoje com
vinte e duas primaveras, fora destaque em concurso de beleza…Com alguma folga econômica,
passei a “pular cercas”…
O
narrador careteou um sorriso vago e inquiriu:
— Ignoram o que seja “pular cercas”?
Diante
da negativa geral, Torres prosseguiu:
— “Pular cercas” no lugarejo em que me enfiei no corpo significa falhar aos
compromissos. Pois é. Esqueci esposa, casamento, lar e família… e habituei-me
às noitadas de gente livre, na cidade grande. Negócios nos dias úteis e
encontros de machão nos fins-de-semana. De quando a quando, bordejos nas
capitais ou no Exterior. O avião favorecia. Acompanhantes não faltavam. Vez por
vez, ouvia os amigos experimentados:
“Salomão, Salomão, não brinque
com fogo… Ninguém é tão desligado que possa viver feliz sem obrigações…”
Entretanto, sempre supus que
dois ouvidos teriam apenas a função de passagem do som.
Continuei
nas mesmas aventuras. Indiferente. O lar ficara para trás. Uma espécie de
garagem para a tradição. Vocês entendem. Amor responsável é um fixador de
alegria. Sexo livre gera prazer. A alegria é a paz da sede estancada. Prazer é
a febre com a sede que devora. Entregue ao prazer, cada fim-de-semana buscava
novidades.
Salomão
arregalou os olhos, dando-nos a ideia de que atingia o ponto culminante das
próprias recordações e concluiu:
— Agora, ouçam e pasmem. Em grande cidade brasileira, participava, com a turma,
de uma excursão a campo novo. Depois do “strip-tease” de bela menina dedicada a
esse tipo de apresentações, fomos ao encontro do “ninho de surpresas”. O ninho de surpresas é um pequeno pavilhão de dez
compartimentos. Em cada compartimento, a beldade sorteada para o suposto
encantamento da noite. Munido da numeração que me coube, demandei o local
indicado. Abri a porta no claro-muito escuro e, devidamente
preparado, segui em frente. Mas, face à face com a jovem que me esperava
sequiosa de sexo, encontrei minha própria filha… Um choque
indefinível me turvou a cabeça e caí…
Retornei
à realidade, juntamente de amigos que me haviam hospitalizado. Em torno de mim,
registrei diagnósticos e pareceres diversos, no entanto, por dentro de mim,
somente ouvia a pergunta que endereçava a mim próprio:
“Meu Deus, que serei eu? Homem
ou animal?”
Repetindo a indagação por
muitos dias, acabei saindo do corpo, qual figura de zoológico fugindo de jaula
enferrujada…
Salomão
esboçou o gesto de quem olhava profundamente para dentro de si e observou:
— Eis-me aqui com vocês,
desconhecendo em que mundo me vejo… Tenho a ideia de que estou sentenciado a
enxergar unicamente aquilo que trago na lembrança para reafirmar a estranha
pergunta: “Meu Deus, que serei eu? Homem ou animal?!…”
Lágrimas
espontâneas lhe saltaram das pálpebras e Torres nos enviou um olhar agoniado,
como quem nos pedisse resposta, mas todos nós, os companheiros que lhe ouvíamos
a palavra quente de dor e sinceridade, jazíamos sob forte emoção e ninguém
respondeu.
Irmão X
- (Humberto
de Campos)
Atendendo
à referida frase de Jesus, caros leitores, por nossa vez, também preferimos nos
calar, aumentar nossas reflexões e redobrar a vigilância
(*) Todos os grifos são
nossos.
Referências
(1) Espíritos Diversos. Caminhos de
volta. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1ª ed. São Bernardo
do Campo. Editora GEEM, 1976. 124p.
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