segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 

Estranha pergunta  

 

Humberto de Campos, conhecido como Irmão X, através da mediunidade de Chico Xavier, legou-nos várias obras de preciosas lições, destacando o conhecido, Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho. Ao mesmo tempo, aparece também com contribuição individual em tantas outras obras do médium mineiro.

Numa delas, Caminhos de Volta, há uma página denominada - Estranha pergunta -, narrando o caso de Salomão Torres, que deve merecer demoradas reflexões de nossa parte. Aborda a matéria sobre família e casamento, laços afetivos e fidelidade conjugal. Assuntos que em razão das naturais incompreensões e discordâncias, são normalmente motivos de calorosas discussões.

Reconheço, são assuntos sensíveis, que por nos tocarem a alma mais de perto, sempre que possível, devem nos fazer recordar da conhecida frase dita por Jesus aos Escribas e Fariseus de todos os tempos, “Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra” (João 8:7).

Antes, porém, de reproduzir a página do Irmão X, julgamos conveniente transcrever três questões de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, para auxiliar nossa melhor compreensão.

695. Será contrário à lei da Natureza o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?

R. “É um progresso na marcha da Humanidade.”

696. Que efeito teria sobre a sociedade humana a abolição do casamento?

R. “Seria uma regressão à vida dos animais.”

O estado de natureza é o da união livre e fortuita dos sexos. O casamento constitui um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas, porque estabelece a solidariedade fraterna e se observa entre todos os povos, se bem que em condições diversas. A abolição do casamento seria, pois, regredir à infância da Humanidade e colocaria o homem abaixo mesmo de certos animais que lhe dão o exemplo de uniões constantes.

697. Está na lei da Natureza, ou somente na lei humana, a indissolubilidade absoluta do casamento?

R. “É uma lei humana muito contrária à da Natureza. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis.”

 

Feita este registro da obra básica do Espiritismo, vamos ao caso de Salomão Torres.

A ESTRANHA PERGUNTA

Este o remate das considerações do amigo Salomão Torres, recentemente desencarnado:

— Imaginem vocês. Estou aqui ainda naquela impressão de tombo e asfixia. Enfarte, é o que ouvi de muitos, quando o corpo já se via naquela de estátua. Traços rígidos e frieza de pedra. Para mim, o enfarte era a soma de mil pequenas e grandes angústias misturadas de indagações incomunicáveis e sem resposta.

O grupo escutava em silêncio e Salomão avançou:
— Bem, vocês sabem. Agora na Terra, sexo é a onda. Liberdade para cá. Liberdade para lá. Sexo livre. Apelos ao sexo. Publicações especializadas de amor às avessas. Espetáculos de “strip-tease”. Afinal, sempre acompanhei os tempos. E lá me fui também para a crista dos casos. Esposa doente e quatro filhos taludos. Dois rapazes esbanjões e duas meninas bonitas. A primogênita, hoje com vinte e duas primaveras, fora destaque em concurso de beleza…Com alguma folga econômica, passei a “pular cercas”…

O narrador careteou um sorriso vago e inquiriu:
— Ignoram o que seja “pular cercas”?

Diante da negativa geral, Torres prosseguiu:
— “Pular cercas” no lugarejo em que me enfiei no corpo significa falhar aos compromissos. Pois é. Esqueci esposa, casamento, lar e família… e habituei-me às noitadas de gente livre, na cidade grande. Negócios nos dias úteis e encontros de machão nos fins-de-semana. De quando a quando, bordejos nas capitais ou no Exterior. O avião favorecia. Acompanhantes não faltavam. Vez por vez, ouvia os amigos experimentados:

“Salomão, Salomão, não brinque com fogo… Ninguém é tão desligado que possa viver feliz sem obrigações…”

Entretanto, sempre supus que dois ouvidos teriam apenas a função de passagem do som.

Continuei nas mesmas aventuras. Indiferente. O lar ficara para trás. Uma espécie de garagem para a tradição. Vocês entendem. Amor responsável é um fixador de alegria. Sexo livre gera prazer. A alegria é a paz da sede estancada. Prazer é a febre com a sede que devora. Entregue ao prazer, cada fim-de-semana buscava novidades.

Salomão arregalou os olhos, dando-nos a ideia de que atingia o ponto culminante das próprias recordações e concluiu:
— Agora, ouçam e pasmem. Em grande cidade brasileira, participava, com a turma, de uma excursão a campo novo. Depois do “strip-tease” de bela menina dedicada a esse tipo de apresentações, fomos ao encontro do “ninho de surpresas”.  O ninho de surpresas é um pequeno pavilhão de dez compartimentos. Em cada compartimento, a beldade sorteada para o suposto encantamento da noite. Munido da numeração que me coube, demandei o local indicado. Abri a porta no claro-muito escuro e, devidamente preparado, segui em frente. Mas, face à face com a jovem que me esperava sequiosa de sexo, encontrei minha própria filha…                             Um choque indefinível me turvou a cabeça e caí…

Retornei à realidade, juntamente de amigos que me haviam hospitalizado. Em torno de mim, registrei diagnósticos e pareceres diversos, no entanto, por dentro de mim, somente ouvia a pergunta que endereçava a mim próprio:  

“Meu Deus, que serei eu? Homem ou animal?”

Repetindo a indagação por muitos dias, acabei saindo do corpo, qual figura de zoológico fugindo de jaula enferrujada…

Salomão esboçou o gesto de quem olhava profundamente para dentro de si e observou:

— Eis-me aqui com vocês, desconhecendo em que mundo me vejo… Tenho a ideia de que estou sentenciado a enxergar unicamente aquilo que trago na lembrança para reafirmar a estranha pergunta: “Meu Deus, que serei eu? Homem ou animal?!…”

Lágrimas espontâneas lhe saltaram das pálpebras e Torres nos enviou um olhar agoniado, como quem nos pedisse resposta, mas todos nós, os companheiros que lhe ouvíamos a palavra quente de dor e sinceridade, jazíamos sob forte emoção e ninguém respondeu.

Irmão X  -  (Humberto de Campos)

Atendendo à referida frase de Jesus, caros leitores, por nossa vez, também preferimos nos calar, aumentar nossas reflexões e redobrar a vigilância

(*) Todos os grifos são nossos.

Referências

(1) Espíritos Diversos. Caminhos de volta. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1ª ed. São Bernardo do Campo. Editora GEEM, 1976. 124p.

(2) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.

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