Contrabandistas
na vida eterna
O Espiritismo sendo uma
doutrina consoladora como uma das suas principais características, assim o é,
por seu aspecto, fundamentalmente, esclarecedor.
Acontece que, na maioria das
vezes, para nós encarnados, passarmos a ser detentores de determinado
conhecimento, pode ser custoso. Não no sentido de sua obtenção, já que a
doutrina está às mãos de qualquer um que a queira conhecer.
Custoso no sentido de ao nos
ilustramos sobre determinado tema, ele venha a mexer com a gente. Mexer lá na
profundidade onde normalmente não gostaríamos de ser incomodados.
Figuradamente, seria como
adentrar em um cômodo, há muito, por nós abandonado, que acumulou muito
sujeira, objetos velhos e insetos próprios destes ambientes insalubres. Quando decidimos
por adentrá-lo e limpá-lo, muitas vezes hesitamos, somos tomados pela preguiça
milenar e pela falta de “coragem” mantida pela sombra dos hábitos que imperam
em nosso íntimo, desistimos, quando não, blasfemamos.
Por séculos, as várias
religiões que deveriam preparar os fiéis para a vida, conscientizando-os da
sobrevivência da alma, com suas naturais consequências, pouco fizeram e fazem
neste sentido, criando cada vez mais “crianças espirituais” no dizer de Zenóbia
no livro Obreiros da vida eterna.
O Espiritismo, como
verdadeira luz a iluminar os caminhos que necessitamos trilhar, nos convida a
mais íntima reflexão, induzindo-nos na coragem de facear nossas próprias
imperfeições como caminho único da melhora espiritual.
Assim, remetemos o leitor
amigo deste Blog, ao livro Nosso Lar, o qual, magistralmente registrado pelo
médium mineiro Chico Xavier, é inigualável demonstração de que o homem
encontrará na vida espiritual o que amontoou para si mesmo na Terra.
Ao lado de Tobias, o
tarefeiro que o acompanha em toda a jornada descrita na obra, André Luiz
inicia-se no trabalho, ainda como observador, nas Câmaras de Retificação. Estas
câmaras acolhem irmãos desencarnados desequilibrados, muitos desconhecendo sua
situação de “mortos” da Terra, que André Luiz os compara a verdadeiros despojos
humanos.
Muito triste a situação
destes irmãos!
Tobias os denomina de
“contrabandistas na vida eterna”. Segundo ele:
“Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o
mesmo valor nos planos do Espírito. Supunham que o prazer criminoso, o poder
do dinheiro, a revolta contra a lei e a imposição dos caprichos atravessariam
as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também, oferecendo lhes ensejos a
disparates novos. Foram negociantes imprevidentes. Esqueceram de cambiar as
posses materiais em créditos espirituais.”
Na minha modesta opinião, esta descrição feita por Tobias,
caracteriza a imensa maioria das pessoas encarnadas hoje na Terra.
Principalmente por muitas autoridades constituídas, não todas é claro, que
deveriam zelar pelo povo e não o fazem. Acumulam tanta riqueza material como se
fossem poder levar consigo após a grande transformação. Isso me faz recordar a
lição de Jesus se dirigindo ao povo da época e para todos nós hoje para que:
“...ficássemos de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida
de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”; e lhes contou a Parábola
do Rico insensato (Lucas 12:13-21):
“A terra de certo homem rico produziu muito. Ele pensou
consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita. Então
disse: Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros
maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E
direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos
anos. Descanse, coma, beba e alegre-se. Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato!
Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida. Então, quem ficará com o que você
preparou?’ Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para
com Deus”.
No Evangelho segundo o Espiritismo, Pascal no capítulo XVI, Não se
pode servir a Deus e a Mamon, escreve sobre a Verdadeira Propriedade:
“O homem só possui em plena propriedade aquilo que lhe é dado
levar deste mundo. Do que encontra ao chegar e deixa ao partir goza ele
enquanto aqui permanece. (...) Que é então o que ele possui? Nada do que é de
uso do corpo; tudo o que é de uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as
qualidades morais.”
Creio que, do lado de lá da vida, muita gente irá se decepcionar
por estar acostumada a ser tratada baseada na sua fortuna, posição social e
posses. Triste ilusão que lhes arremeterá ao sofrimento e muitas lágrimas, cuja
causa a não ser aos próprios desatinos, deverão atribuir. A Vida do homem onde
estiver. estará centralizada onde centralize ele o próprio coração.
Para encerrar, apenas gostaria de lembrar que André Luiz, célebre
autor espiritual do best-seller Nosso Lar, como a reencarnação do eminente
médico Carlos Chagas, possuidor de muitos méritos na Terra, retomou o trabalho
no Mundo Espiritual, limpando vômitos de pessoas doentes nas Câmaras de
Retificação. Pergunto o que sobra pra nós?
Até a próxima semana!
(*) Todos os grifos são meus
(1) Luiz, André. Obreiros da vida
eterna. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília. Editora
FEB, 1946. 304p.
(2) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 410p.
(3) Luiz, André. Nosso Lar. Psicografado
por Francisco Cândido Xavier. 45ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 281p.