segunda-feira, 20 de julho de 2026

 

Fatalidade - continuando o diálogo

 

- Posso continuar com as perguntas?

R. Sim, é claro. Este assunto sobre a fatalidade em nossas vidas é muito atrativo e sempre deve ser estudado para sua melhor compreensão.

- O conceito de fatalidade, segundo as orientações da Doutrina Espírita, de certa forma, ainda é um tanto confuso, para mim. Poderia tentar aprofundar o tema, melhor esclarecendo?

R. Vamos tentar com muita satisfação. Citarei alguns exemplos, para auxiliar.

Todas as leis que regem o conjunto dos fenômenos da Natureza têm consequências necessariamente fatais, isto é, inevitáveis, e essa fatalidade é indispensável à manutenção da harmonia universal. O homem, que sofre essas consequências, está, pois, em alguns aspectos, submetido à fatalidade, em tudo quanto não dependa de sua iniciativa. Assim, por exemplo, deve morrer fatalmente; é a lei comum, à qual não pode subtrair-se e, em virtude dessa lei, pode morrer em qualquer idade, quando chegar a sua hora; mas, se apressa voluntariamente a sua morte, pelo suicídio ou por seus excessos, age em virtude de seu livre-arbítrio, porque ninguém o pode constranger a fazê-lo. Deve comer para viver: é a fatalidade; mas se comer além do necessário, abusivamente, por livre escolha sua, poderá adoecer.  

- Está clareando o conceito...Poderia citar outros exemplos?

R. Pois não. Em sua cela, o prisioneiro é livre de mover-se à vontade, no espaço que lhe é concedido; mas as paredes que não pode transpor são para ele a fatalidade que lhe restringe a liberdade. Para o soldado a disciplina é uma fatalidade, pois o obriga a atos independentes de sua vontade, mas não é menos livre em suas ações pessoais, pelas quais é responsável. Assim é com o homem na Natureza. A Natureza tem as suas leis fatais, que lhe opõem uma barreira, mas aquém da qual ele pode mover-se à vontade.

- Nesta última resposta, você se referiu em especial, a Natureza. Mas, e quanto às ações da individualidade de cada um, os acontecimentos da vida particular, poderia dizer algo a respeito? 

R. Tendo o homem o seu livre-arbítrio, a fatalidade não participa de suas ações individuais; quanto aos acontecimentos da vida privada, que por vezes parecem atingi-lo fatalmente, têm duas fontes bem distintas: uns são consequência direta de sua conduta na existência presente; muitas pessoas são infelizes, doentes, enfermas por sua falta; muitos acidentes são resultado da imprevidência; ele não pode queixar-se senão de si mesmo, e não da fatalidade ou, como se diz, de sua má estrela. É a colheita após a semeadura.

- E os outros? De onde provém?

R. Os outros são completamente independentes da vida presente e, por isto mesmo, parecem devidos a uma certa fatalidade; mas, ainda aqui, o Espiritismo nos demonstra que essa fatalidade é apenas aparente, e que certas situações penosas da vida têm sua razão de ser na pluralidade das existências. O Espírito as escolheu voluntariamente antes de sua encarnação, como provações para o seu adiantamento; elas são, pois, resultado do livre-arbítrio, e não da fatalidade.

- Você está querendo dizer, que mesmo nos casos de fatos ou circunstâncias “impostas” pela providência Divina...

R. Exatamente o que você está pensando...Mesmo nestes casos, em que se configura na Terra, uma fatalidade para o espírito reencarnado, como expiação, ela se dá em razão das más ações voluntariamente cometidas pelo homem numa precedente existência, e não como consequência de uma lei fatal, pois ele poderia tê-las evitado, agindo de outro modo.

- Se bem entendi, devemos procurar a origem real da “fatalidade” e esta, normalmente, mesmo sendo em existência anterior, foi fruto da liberdade de escolha do espírito. Portanto não houve, de fato, fatalidade.

R. Atente para esta frase, meu caro irmão: “Em cada instante de nossa vida, estamos recolhendo o que semeamos, dependendo da nossa sementeira de hoje a colheita melhor de amanhã.”

- Ótima, preciso mesmo refletir muito sobre ela.

R. Se um acontecimento está no destino de um homem, ele se realizará, a despeito de sua vontade, e será sempre para o seu bem; mas as circunstâncias da realização dependem do uso que ele faça de seu livre-arbítrio, e muitas vezes ele pode fazer redundar em seu prejuízo o que deveria ser um bem, se agir com imprevidência, e se se deixar arrastar pelas paixões.

A fatalidade é o freio imposto ao homem por uma vontade superior à sua, mas jamais é um entrave ao exercício de seu livre-arbítrio, no que concerne às suas ações pessoais.

- E quanto à morte? Há fatalidade em todos os casos? Quero dizer, independente do tipo de morte, sempre haverá fatalidade, ou seja, se morreu é porque tinha que morrer. É assim?

R. Calma lá! Claro que não é bem assim não. Fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só o instante da morte o é. Todos que estão encarnados na Terra, um dia deverão desencarnar. Isto que é a fatalidade da morte. Agora quanto ao dia, mês, ano, idade da pessoa que deverá morrer, em boa parte dos casos, pode-se atribuir a imprudência. Em bom português, a maioria de nós, poderia viver mais tempo sobre a Terra.

- Xiii...poderia esclarecer melhor esta questão? Ela é muito polêmica, mesmo entre os espíritas.

Sim, vamos lá.

Há muitos espíritos que retornam à espiritualidade em plena infância por pura falta de recursos de subsistência e também por falta dos mais simples serviços de saúde.

- Isso eu concordo. Na medida em que um país se desenvolve aprimorando seus serviços de saúde reduz-se drasticamente a mortalidade infantil. Isto, é um fato!

 Esta afirmativa pode ser chocante para quem imagina que tudo acontece por fatalidade divina, ou até pela vontade de Deus. Levada às últimas consequências semelhante ideia nos isentaria de qualquer responsabilidade envolvendo tanto a vida quanto à morte.

O doente morre à mingua de socorro; vontade de Deus!

 Transeuntes morrem num tiroteio; vontade de Deus!

 Dezenas de pessoas morrem num atentado terrorista; vontade de Deus!

 Milhares morrem numa guerra; vontade de Deus!

 E por que não dizer que o indivíduo que tenta o suicídio e a mulher que pretende abortar só conseguem seu objetivo porque é a vontade de Deus?

 Nenhum desses crimes, nenhuma dessas mortes, ocorre por iniciativa Divina. Não passam é de contingências geradas pela insensatez humana.

Embora muitas dessas tragédias possa ter uma origem cármica, representando o resgate de velhos débitos, há aquelas que não estavam programadas. Acontecem por pura imprudência.

Claro, teríamos que analisar caso a caso! Mas ambas as situações acima referidas podem ocorrer num planeta de expiações e provas.

No livro Nosso Lar, André Luiz é considerado, pelo generoso Clarêncio, como suicida inconsciente. Presume-se que ele poderia ter vivido mais tempo sobre a Terra. A informação, com o devido esclarecimento, está no início do livro, bem no capítulo 4. Vale a pena conferir.

Também no livro Missionários da Luz, o personagem Manassés, em esclarecedor diálogo com André Luiz, nos apresenta o conceito de completista. São os raros irmãos que aproveitaram todas as possibilidades construtivas que o corpo terrestre oferece.

Ele chega a dizer que, por vezes, desprezamos cinquenta, sessenta, setenta per cento e, frequentemente, até mais, de nossas possibilidades.

Refletindo sobre estas duas passagens, que estão ao nosso alcance, na excelente obra de André Luiz, chegamos à conclusão que pode-se sim, voltar à pátria espiritual antes do tempo previsto.

- Confesso que, embora, já tenha lido estas obras, não cheguei a refletir nestas passagens, considerando os aspectos sobre a fatalidade. Não havia ainda pensado por este prisma.

R. Pois trate de pensar, porque é muito válido!

- Alguma consideração para encerrarmos?

R. Eu diria que não é da vontade de Deus que morram crianças em locais de carentes recursos; excetuando-se as que partem atendendo a problemas cármicos a maioria morre porque Deus não encontra pessoas que se disponham a agir como instrumento de sua vontade para socorrê-las. Se a onipresença Divina se faz sentir em todas as dimensões do Universo e em todas as manifestações da vida, atentemos que Deus também está presente nos olhos tristes de uma criança carente, rogando-nos que a ajudemos a viver. Basta para isso que superemos nossas milenares tendências egoísticas.

 

(*) Todos os grifos são nossos.

Referências

(1) Simonetti, R. Quem tem medo da morte. 1ª edição. Editora Gráfica São João. 1987, 155p.

(2) Simonetti, R. Quem tem medo dos espíritos. 1ª edição. Editora Gráfica São João. 1992, 140p.

(1) Kardec, Allan. Revista Espírita. A ciência da concordância dos números e a fatalidade. Julho de 1868. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004.

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