segunda-feira, 14 de setembro de 2026

 

                 Num diálogo mediúnico

 Neste artigo transcrevo um diálogo ocorrido durante reunião mediúnica realizada no dia 8 de setembro no Grupo Espírita da Fraternidade, em Araçatuba, casa espírita que frequento desde o ano de 1981, nos meus verdes dezesseis anos de idade. Acostumei-me, desde minha primeira participação nas reuniões mediúnicas, em 2013, a gravá-las para estudos e reflexões posteriores.

O caso descrito, é de especial interesse para todos nós que militamos no Espiritismo, pois trata da realidade da dinâmica da vida espiritual, após o desencarne, mesmo para irmãos que professam outras crenças religiosas e, naturalmente, se veem frente a esta realidade e se mostram desejosos de alertar os familiares que ficaram na Terra. Mas, vamos ao diálogo, esperando que possamos aproveitar suas lições.

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- Boa noite irmão, seja bem vindo a nossa reunião.

- Obrigado. Eu fui convidado para vir até aqui. 

- Um convite? Que bom, seja muito bem-vindo – repeti, procurando deixa-lo à vontade para o diálogo que iniciaríamos.

- Há pouco eu acabei de ouvir algumas coisas e agora estou tentando compreender melhor – falou, se referindo a alguma informação que os irmãos espirituais forneciam.

- É que eu estou muito triste. 

- É? Conte-me o que aconteceu. Vamos fazer um diálogo e se eu puder lhe ajudar...

- É que eu perdi a minha vida, o senhor sabe, eu sou um espírito. Assim que vocês falam, não é? Eu estava na minha casa querendo alertar eles.

- Você estava lá como espírito desencarnado, é isso? – arrisquei a pergunta para saber se ele tinha essa compreensão.

- Sim, isso mesmo – confirmou.

- Estou entendendo. E ai?

- Eu consegui ficar lá, na minha residência. Eu queria falar com eles.

- Com seus familiares? – perguntei.

- Isso, dizer para eles que eu estava ali, que não acaba. Mas eles me chamavam de perturbação. O pastor, nosso amigo, foi chamado até minha casa para orar. Ele me excomungou.  Excomungou e me tratou como se fosse o demônio. Eu fiquei muito mal, muito abalado – nessa hora percebi o motivo de sua tristeza.

- Entendo perfeitamente o que você está dizendo – falei e deixei-o continuar em seu relato.

- E eu fui assim, sabe, humilhado por outros espíritos. Não sei se o senhor poderá me compreender – desabafando.

- Perfeitamente. Compreendo-o perfeitamente, meu irmão!

- Mas foi uma coisa tão horrível, tão horrível – falou comovido.

- A sua intenção, sei, era a melhor possível.

- Sim – confirmou - eu só queria alertá-los que eu estava ali...eu estava vivo como nunca! Que aquilo que a gente imagina depois da morte não era a verdade e eu queria mostrar para eles e acabei sendo excomungado como um demônio – desapontado, provavelmente se referia a algum ritual que o pastor conduziu em sua casa.

- Aí, espíritos, que acompanhavam o pastor e a equipe, riram de mim e me humilharam, me bateram, depois me expulsaram da minha própria casa...me expulsaram, pode imaginar? – senti sua profunda mágoa nesta fala.

- Nesta hora, me ajoelhei e chorei muito para Deus. Eu não estava entendendo nada – e repetiu inconsolável - que eu não entendia nada do que estava acontecendo. E de repente, apareceram dois homens que pareciam ser de alguma igreja.

- Estou entendendo, continue seu relato – falei para motivá-lo a continuar.

- Eles me convidaram para acompanhá-los pois iriam me apresentar um outro lugar no qual eu poderia receber auxílio, esclarecimento. Estou numa tristeza profunda, não sei se o senhor vai conseguir imaginar o tamanho da minha tristeza. Não é nem..., não é nem por eu ter deixado a vida em razão da morte – falou um tanto confuso.

- A dimensão da tristeza realmente eu não consigo imaginar – falei consolando - porém, há uma pergunta que eu posso lhe fazer para você me responder e que pode ajudar em suas reflexões.

- Pois não, pois não, gostaria de ouvir. 

- É com todo respeito que eu me dirijo a você para lhe fazer esta pergunta – considerei antes de perguntar. A pergunta é, se fosse uma outra pessoa da sua família que tivesse falecido e você estivesse vivo naquela casa, será que você agiria de maneira diferente ou da mesma forma que seus familiares agiram?

- Da mesma forma, com certeza, da mesma forma… e é isso que me dói – respondeu com voz desanimada e completou com alguma compreensão: Diante dos meus familiares que já faleceram, será que eu não fiz o mesmo?

Respondi sem hesitar:

- Disso não tenho dúvida e com absoluta certeza posso lhe afirmar. Porque foi o que a sua crença religiosa, e eu digo isso respeitosamente, lhe ensinou – expliquei tentando auxiliar. Você assimilou a morte como sendo o fim da vida e só agora, passando para o outro lado da vida, está constatando qual é a realidade, meu irmão. As religiões, auxiliam, entretanto, de forma geral, já fizeram muitos estragos também.

- É..., duro concordar, mas é verdade.

- Mas como você é um estudioso dos textos evangélicos, deve se recordar da parábola do mau rico, em que após sua morte, o homem rico implora a Abraão para ir alertar seus familiares a respeito da realidade da vida espiritual.

- Sim, me recordo. Mas por um momento, por um momento, eu tive a impressão de que o pastor me reconheceu, como se sentisse minha presença em minha própria casa. Ele me reconheceu… 

- Ele deve ser médium…isso é bem possível de ter acontecido – informei. 

- Eu acredito, pois experimentei essa sensação.  

- Eu não posso afirmar categoricamente, mas pode ter acontecido, porém, diante da crença que ele professa, ele não poderia aceitar.

- Mas ele me excomungou como um demônio – disse o assistido com voz de revolta.

- Não guarde mágoa e nem rancor desse irmão. Era o que ele podia ter feito naquele momento.

- Não, eu não tenho. Eu não guardo rancor, nem mágoa – respondeu, demonstrando bom coração.

- Foi mais a tristeza que lhe invadiu né? – perguntei procurando conciliar.

- Sim. O senhor imagina o que seja estar diante de uma verdade, de um fato, e o senhor não conseguir…

- Transmitir isso - completei a frase para ele.

- Exato. Isso é o que mais me perturba.

- Creio que deve ser isso sim. Tenho esta impressão também.

Nesta hora, fiz uma comparação para aliviar a tensão.

- Imagine você que o Cristo também sentiu isso por nós e por essa razão Ele chorou em alguns momentos. Ele sabia que toda a humanidade ignorava essas coisas. Na própria cruz, ele pediu a Deus que nos perdoasse pela ignorância, que ainda hoje persiste. Ele, o Cristo, sente tudo isso por nós. O que você sentiu por um ou dois familiares, Ele de verdade sentiu por toda a Humanidade.

De certa forma, percebendo o que ia em seu pensamento, eu disse:

- Acho que você gostaria de se materializar na frente de seus familiares e dizer tudo isso para eles, estou certo? – perguntei.

- Bem isso. Dizer que todos eles estavam enganados, que não era assim – concordou com a ideia.

- Creio que seria até pior – ponderei - pois iam dizer que se tratava de uma aparição demoníaca.

- Exatamente isso, você tem razão – aliviado, concordou.

- Deus não violenta consciências, meu irmão. 

- Mas tenho a nítida sensação que meus familiares me sentiram a presença, que eles me percebiam ali.

- Eu sei – concordei. Foi por isso que eles até chamaram o pastor, mas…Deus não violenta consciências. Você precisou morrer para renascer no entendimento e na luz do esclarecimento – aclarei o assunto. É assim, cada um tem o seu momento. Sabe o que eu lhe sugiro, se você me permite dizer – arrisquei.

- Claro, pode dizer.

- Ore por eles. Aliás eu acho que é o que você já vem fazendo não?

- Sim, sim eu sou um homem de oração – falou com voz calma.

Após um breve silêncio, acrescentei:

- Afaste do seu coração essa tristeza, porque você precisa avançar…

- Mas as minhas orações, as minhas orações perderam o sentido, a forma com que eu aprendi a orar é…- sem deixar que terminasse a frase,vexpliquei:

- Não, não perderam o sentido. Agora você irá orar de maneira diferente.

- Será? 

- Sim, naquele momento dentro da sua concepção religiosa, no seu entendimento, elas foram muito valiosas e com certeza atingiram seus objetivos. Porém, agora, com esta nova percepção da continuidade da vida, você irá orar de maneira diferente e também receberá toda a atenção dos amigos espirituais. Então, não deixe que essa tristeza se prolongue dentro do seu coração.

- Vou procurar atender esse pedido.

Percebendo que o diálogo deveria terminar, orientei:

- Entenda assim, eu sou feliz por estar “vivo” e desperto para essas novas realidades. Na medida das minhas possibilidades e, se Deus permitir, eu auxiliarei meus familiares. O resto meu irmão, deixe por conta de Deus!

- Muito bom... Agora eu tenho tanta coisa nova para assimilar, não é?

- E como. E digo mais, será que não teve algum familiar seu, que já havia desencarnado antes de você, que foi em sua casa tentar lhe avisar sobre essas realidades e você também não o ouviu?

- Pode ser...

- Está vendo? Assim são as coisas, mas continue fazendo a sua parte, e que Deus lhe abençoe.

- Eu agradeço muito. Só posso agradecer agora. Depois dessa conversa, estou me sentindo bem melhor. Sinto que a tristeza está se dissipando do meu coração. Muito obrigado.

- Entendamos que tudo está sob as visto de Deus, nosso Pai, e de Jesus, nosso amável Mestre. Ele é o governador espiritual do planeta. Tem tudo em suas mãos, e na hora certa cada um há de despertar.

- Gostaria também de dizer que minha família, é uma família boa, todos somos pessoas do bem.

- Isso meu irmão – falei com ternura - é o mais importante. Tenho certeza que está bondade cultivada, auxiliou e muito, você obter essa consciência após a morte.

- Muito agradecido e aqui me despeço.

- Não há o que agradecer. Persista com suas preces, que elas trarão alegria em seu viver. Vá em paz e que Deus lhe abençoe.

 

Concluindo, diríamos ao caro leitor deste blog, que, diante dos familiares queridos que partiram antes de nós, agradeçamos a infinita bondade de Deus, que nos empresta as afeições uns pelos outros, a fim de aprendermos, através de idas e vindas temporárias aqui na Terra, a cultivar o amor indestrutível que nos reunirá, um dia, na felicidade sem adeus.

 

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