Num diálogo mediúnico
O caso
descrito, é de especial interesse para todos nós que militamos no Espiritismo,
pois trata da realidade da dinâmica da vida espiritual, após o desencarne,
mesmo para irmãos que professam outras crenças religiosas e, naturalmente, se veem
frente a esta realidade e se mostram desejosos de alertar os familiares que
ficaram na Terra. Mas, vamos ao diálogo, esperando que possamos aproveitar suas
lições.
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- Boa noite irmão, seja bem
vindo a nossa reunião.
- Obrigado. Eu fui convidado
para vir até aqui.
- Um convite? Que bom, seja muito
bem-vindo – repeti, procurando deixa-lo à vontade para o diálogo que iniciaríamos.
- Há pouco eu acabei de ouvir algumas
coisas e agora estou tentando compreender melhor – falou, se referindo a alguma
informação que os irmãos espirituais forneciam.
- É que eu estou muito triste.
- É? Conte-me o que aconteceu.
Vamos fazer um diálogo e se eu puder lhe ajudar...
- É que eu perdi a minha vida,
o senhor sabe, eu sou um espírito. Assim que vocês falam, não é? Eu estava na
minha casa querendo alertar eles.
- Você estava lá como espírito
desencarnado, é isso? – arrisquei a pergunta para saber se ele tinha essa
compreensão.
- Sim, isso mesmo – confirmou.
- Estou entendendo. E ai?
- Eu consegui ficar lá, na
minha residência. Eu queria falar com eles.
- Com seus familiares? –
perguntei.
- Isso, dizer para eles que eu
estava ali, que não acaba. Mas eles me chamavam de perturbação. O pastor,
nosso amigo, foi chamado até minha casa para orar. Ele me excomungou.
Excomungou e me tratou como se fosse o demônio. Eu fiquei muito mal, muito
abalado – nessa hora percebi o motivo de sua tristeza.
- Entendo perfeitamente o que você
está dizendo – falei e deixei-o continuar em seu relato.
- E eu fui assim, sabe,
humilhado por outros espíritos. Não sei se o senhor poderá me compreender –
desabafando.
- Perfeitamente. Compreendo-o
perfeitamente, meu irmão!
- Mas foi uma coisa tão
horrível, tão horrível – falou comovido.
- A sua intenção, sei, era a
melhor possível.
- Sim – confirmou - eu só
queria alertá-los que eu estava ali...eu estava vivo como nunca! Que aquilo que
a gente imagina depois da morte não era a verdade e eu queria mostrar para eles
e acabei sendo excomungado como um demônio – desapontado, provavelmente se
referia a algum ritual que o pastor conduziu em sua casa.
- Aí, espíritos, que
acompanhavam o pastor e a equipe, riram de mim e me humilharam, me bateram, depois
me expulsaram da minha própria casa...me expulsaram, pode imaginar? – senti sua
profunda mágoa nesta fala.
- Nesta hora, me ajoelhei e
chorei muito para Deus. Eu não estava entendendo nada – e repetiu inconsolável
- que eu não entendia nada do que estava acontecendo. E de repente, apareceram
dois homens que pareciam ser de alguma igreja.
- Estou entendendo, continue
seu relato – falei para motivá-lo a continuar.
- Eles me convidaram para
acompanhá-los pois iriam me apresentar um outro lugar no qual eu poderia
receber auxílio, esclarecimento. Estou numa tristeza profunda, não sei se o
senhor vai conseguir imaginar o tamanho da minha tristeza. Não é nem..., não é
nem por eu ter deixado a vida em razão da morte – falou um tanto confuso.
- A dimensão da tristeza realmente
eu não consigo imaginar – falei consolando - porém, há uma pergunta que eu
posso lhe fazer para você me responder e que pode ajudar em suas reflexões.
- Pois não, pois não, gostaria
de ouvir.
- É com todo respeito que eu
me dirijo a você para lhe fazer esta pergunta – considerei antes de perguntar. A
pergunta é, se fosse uma outra pessoa da sua família que tivesse falecido e
você estivesse vivo naquela casa, será que você agiria de maneira diferente ou
da mesma forma que seus familiares agiram?
- Da mesma forma, com certeza,
da mesma forma… e é isso que me dói – respondeu com voz desanimada e completou
com alguma compreensão: Diante dos meus
familiares que já faleceram, será que eu não fiz o mesmo?
Respondi sem hesitar:
- Disso não tenho dúvida e com
absoluta certeza posso lhe afirmar. Porque foi o que a sua crença religiosa, e
eu digo isso respeitosamente, lhe ensinou – expliquei tentando auxiliar. Você
assimilou a morte como sendo o fim da vida e só agora, passando para o outro
lado da vida, está constatando qual é a realidade, meu irmão. As religiões,
auxiliam, entretanto, de forma geral, já fizeram muitos estragos também.
- É..., duro concordar, mas é verdade.
- Mas como você é um estudioso dos textos evangélicos, deve se recordar da parábola do mau rico, em
que após sua morte, o homem rico implora a Abraão para ir alertar seus familiares a respeito da realidade da vida espiritual.
- Sim, me recordo. Mas por um
momento, por um momento, eu tive a impressão de que o pastor me reconheceu, como
se sentisse minha presença em minha própria casa. Ele me reconheceu…
- Ele deve ser médium…isso é
bem possível de ter acontecido – informei.
- Eu acredito, pois
experimentei essa sensação.
- Eu não posso afirmar
categoricamente, mas pode ter acontecido, porém, diante da crença que ele
professa, ele não poderia aceitar.
- Mas ele me excomungou como
um demônio – disse o assistido com voz de revolta.
- Não guarde mágoa e nem
rancor desse irmão. Era o que ele podia ter feito naquele momento.
- Não, eu não tenho. Eu não guardo
rancor, nem mágoa – respondeu, demonstrando bom coração.
- Foi mais a tristeza que lhe
invadiu né? – perguntei procurando conciliar.
- Sim. O senhor imagina o que seja
estar diante de uma verdade, de um fato, e o senhor não conseguir…
- Transmitir isso - completei
a frase para ele.
- Exato. Isso é o que mais me
perturba.
- Creio que deve ser isso sim.
Tenho esta impressão também.
Nesta hora, fiz uma comparação
para aliviar a tensão.
- Imagine você que o Cristo
também sentiu isso por nós e por essa razão Ele chorou em alguns momentos. Ele
sabia que toda a humanidade ignorava essas coisas. Na própria cruz, ele pediu a
Deus que nos perdoasse pela ignorância, que ainda hoje persiste. Ele, o Cristo,
sente tudo isso por nós. O que você sentiu por um ou dois familiares, Ele de
verdade sentiu por toda a Humanidade.
De certa forma, percebendo o
que ia em seu pensamento, eu disse:
- Acho que você gostaria de se
materializar na frente de seus familiares e dizer tudo isso para eles, estou
certo? – perguntei.
- Bem isso. Dizer que todos
eles estavam enganados, que não era assim – concordou com a ideia.
- Creio que seria até pior –
ponderei - pois iam dizer que se tratava de uma aparição demoníaca.
- Exatamente isso, você tem
razão – aliviado, concordou.
- Deus não violenta
consciências, meu irmão.
- Mas tenho a nítida sensação que
meus familiares me sentiram a presença, que eles me percebiam ali.
- Eu sei – concordei. Foi por
isso que eles até chamaram o pastor, mas…Deus não violenta consciências. Você
precisou morrer para renascer no entendimento e na luz do esclarecimento –
aclarei o assunto. É assim, cada um tem o seu momento. Sabe o que eu lhe sugiro,
se você me permite dizer – arrisquei.
- Claro, pode dizer.
- Ore por eles. Aliás eu acho
que é o que você já vem fazendo não?
- Sim, sim eu sou um homem de
oração – falou com voz calma.
Após um breve silêncio,
acrescentei:
- Afaste do seu coração essa
tristeza, porque você precisa avançar…
- Mas as minhas orações, as
minhas orações perderam o sentido, a forma com que eu aprendi a orar é…- sem
deixar que terminasse a frase,vexpliquei:
- Não, não perderam o sentido.
Agora você irá orar de maneira diferente.
- Será?
- Sim, naquele momento dentro
da sua concepção religiosa, no seu entendimento, elas foram muito valiosas e
com certeza atingiram seus objetivos. Porém, agora, com esta nova percepção da
continuidade da vida, você irá orar de maneira diferente e também receberá toda
a atenção dos amigos espirituais. Então, não deixe que essa tristeza se
prolongue dentro do seu coração.
- Vou procurar atender esse
pedido.
Percebendo que o diálogo deveria
terminar, orientei:
- Entenda assim, eu sou feliz
por estar “vivo” e desperto para essas novas realidades. Na medida das minhas
possibilidades e, se Deus permitir, eu auxiliarei meus familiares. O resto meu
irmão, deixe por conta de Deus!
- Muito bom... Agora eu
tenho tanta coisa nova para assimilar, não é?
- E como. E digo mais,
será que não teve algum familiar seu, que já havia desencarnado antes de você, que
foi em sua casa tentar lhe avisar sobre essas realidades e você também não o ouviu?
- Pode ser...
- Está vendo? Assim são as
coisas, mas continue fazendo a sua parte, e que Deus lhe abençoe.
- Eu agradeço muito. Só posso
agradecer agora. Depois dessa conversa, estou me sentindo bem melhor. Sinto que
a tristeza está se dissipando do meu coração. Muito obrigado.
- Entendamos que tudo está sob
as visto de Deus, nosso Pai, e de Jesus, nosso amável Mestre. Ele é o
governador espiritual do planeta. Tem tudo em suas mãos, e na hora certa cada
um há de despertar.
- Gostaria também de dizer que
minha família, é uma família boa, todos somos pessoas do bem.
- Isso meu irmão – falei com
ternura - é o mais importante. Tenho certeza que está bondade cultivada,
auxiliou e muito, você obter essa consciência após a morte.
- Muito agradecido e aqui me
despeço.
- Não há o que agradecer. Persista
com suas preces, que elas trarão alegria em seu viver. Vá em paz e que Deus lhe
abençoe.
Concluindo,
diríamos ao caro leitor deste blog, que, diante dos familiares queridos que
partiram antes de nós, agradeçamos a infinita bondade de Deus, que nos empresta
as afeições uns pelos outros, a fim de aprendermos,
através de idas e vindas temporárias aqui na Terra, a cultivar o amor indestrutível que nos
reunirá, um dia, na felicidade sem adeus.
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