Entrevista
com Chico Xavier - II
Damos continuidade, neste artigo, às iluminadas respostas do elevado espírito Chico Xavier.
A CIDADE "NOSSO LAR"
P – O Espírito de André Luiz
descreveu a experiência de sua vida na condição de desencarnado, numa cidade
espiritual em seu livro “Nosso Lar”. Como médium o senhor pode atestar cidades
como esta, fora do plano terrestre?
CX – Eu não posso transferir a
minha certeza àqueles que me ouvem, mas posso dizer que, em 1943, quando o
espírito de André Luiz começou a escrever por nosso intermédio senti grande
estranheza com o que ele ditava e escrevia. Certa noite, tomadas as
providências necessárias, segundo a orientação de Emmanuel, ele próprio e André
Luiz me levaram a determinada parte, a determinado bairro da cidade de “Nosso
Lar”. Posso dizer que fui em desdobramento espiritual na chamada zona
hospitalar da cidade. Foi para mim uma excursão espiritual inesquecível, como
se eu desfrutasse os favores de um espírito liberto. Vi muita coisa maravilhosa
sem compreender tudo ou entender muito pouco, porque fui em função de serviço,
não por mérito.
TRANSPLANTES E CORPO
ESPIRITUAL
P – Dizem os espíritos que o
corpo físico é uma duplicata do corpo espiritual; no transplante do coração não
haverá um choque entre a existência do órgão que permaneceu no corpo astral ao
lado do que foi substituído?
CX – Por isso mesmo que o
nosso amigo André Luiz considera a rejeição como um problema claramente
compreensível, pois o coração do corpo espiritual está presente no receptor. O
órgão astral, vamos dizer assim, provoca os elementos da defensiva do corpo,
que os recursos imunológicos em futuro próximo, naturalmente, vão sustar ou
coibir.
REENCARNAÇÃO
P – Como entender a
reencarnação compulsória?
CX – Cremos que da maneira
pela qual internamos o doente no hospital ou segregamos o nosso irmão delinquente
nas celas regenerativas de uma escola ou penitenciária.
P – Você, Chico, conhece algum
caso em que o espírito obsessor se manteve durante toda a vida fértil da
mulher, impedindo-lhe a gestação?
CX – Sim, isso é raro mas
acontece, dentro dos princípios de causa e efeito que nos regem a vida.
P – No processo
reencarnatório, segundo conhecemos, o espírito reencarnante é previamente
ligado ao espírito da genitora. No caso da reencarnação através do tubo de
ensaio, como seria suprida essa necessidade?
CX – Admitimos que a
reencarnação, se efetuada pelo tubo de ensaio, se efetuará em bases de amor no
ambiente a que o espírito reencarnante for conduzido. Isso, na hipótese da
Humanidade progredir moralmente, passando a merecer esse tipo de reencarnação,
obviamente com muito menos entraves para a criatura que tornará novo corpo
entre os homens.
P – A beleza física
corresponde à beleza espiritual?
CX – Nem sempre.
PROVA DA REENCARNAÇÃO
P – Qual a maior prova
concreta que Francisco Cândido Xavier aponta sobre a reencarnação?
CX – A lógica para
compreendermos a desigualdade no campo das criaturas humanas. Por que é que uns
renascem sofrendo em condições muito mais difíceis do que os outros? Não
podemos admitir a injustiça divina! Deus é a justiça suprema. Portanto, nós
devemos a nós mesmos a consequência dos nossos desajustes. Se eu pratiquei um
crime, se lesei alguém, é natural que não tendo pago a minha dívida moral,
durante o espaço curto de uma existência, é justo que eu faça esse resgate em
outra existência, porque de outro modo, compreenderíamos Deus como um ditador,
distribuindo medalhas para uns e chagas para outros, o que é inadmissível.
DESENCARNAÇÃO
P – Ao desencarnar, o espírito
toma conhecimento imediato de suas vidas anteriores?
CX – O “Livro dos Espíritos”
nos explica que geralmente isso não acontece.
P – Todos os indivíduos, ao
reencarnarem, têm um tempo de vida determinado Se, por culpa própria,
desencarnarem antes desse tempo, o que pode ocorrer ao espírito?
CX – Não nos é fácil estudar,
por agora, semelhante assunto. A vida e a desencarnação se conjugam
profundamente com os desígnios da Providência Divina e com o livre arbítrio da
criatura.
P – Os indivíduos que não
acreditam na vida após a morte despertam com facilidade depois do decesso
físico?
CX – Dizem os Espíritos Amigos
que de modo geral, isso não sucede.
P – As criaturas que não
acreditam na vida após a morte, ao desencarnarem têm dificuldade para o
despertar? Por quê?
CX – Falta-lhes aquilo que
poderíamos nomear como sendo “aceitação da realidade”, ou “adestramento
preparatório para facear a Vida Maior”
P – A velhice o preocupa?
CX – Não, absolutamente. Cada
idade tem a sua beleza.
P – Como encara a morte?
CX – Naturalmente que somos
humanos e a despedida de um ente amado, mormente quando esse ente amado vai
adquirir nova forma, de um modo geral se tornando invisível ao nosso olhar
comum, a nossa dor é imensa. Quando vemos partir, par exemplo, um filho para
uma terra distante, quando sofremos prova da separação de ente querido, mesmo
na Terra, sofremos compreensivelmente, de vez que o amor vem de Deus e quando
amamos, queremos perto de nós a criatura querida. Ainda sabendo que a morte vem
de Deus, quando nós não a provocamos, não podemos, por enquanto, na Terra
receber a morte com alegria porque ninguém recebe um adeus com felicidade, mas
podemos receber a separação com fé em Deus, entendendo que um dia nos
reencontramos todos numa vida maior e essa esperança deve aquecer-nos o coração.
IMPRESSÃO DEPOIS DA MORTE
P – De modo geral, qual será a
primeira impressão da criatura humana, na ocasião precisa da morte?
CX – Para todos aqueles que
terminaram a existência terrestre com uma consciência tranquila, limpa,
conquanto os muitos erros em que todos nós incorremos nesta existência, a
impressão no outro mundo é de profunda alegria, de felicidade mesmo, no
reencontro com as pessoas queridas que nos antecederam na grande transformação.
Entretanto, quando nós
malbaratamos os patrimônios da vida, quando não consideramos as nossas
responsabilidades, é natural que soframos as consequências no mundo espiritual,
antes de voltarmos, naturalmente à Terra, em novo renascimento, para o resgate
que se faz jus.
A ORIGEM DAS MOLÉSTIAS
P – Como é que os Amigos
Espirituais interpretam a origem das moléstias mentais complexas como, por
exemplo, a esquizofrenia? Ela terá cura?
CX – Eles observam, muitas
vezes, que nascemos com processos alusivos a moléstias chamadas incuráveis, como
resultados de complexos de culpas adquiridos por nós mesmos em existências
passadas. Por exemplo: um homem extermina a vida de outro homem e parte para o
Além; a vítima perdoou ao verdugo, mas a consciência do verdugo não concordou
com esse perdão, e ele continua com o remorso, com o problema da culpa a lhe
estragar a tranquilidade íntima. Dessa forma, os pensamentos de remorso repercutem
sobre o corpo espiritual e determinam o desequilíbrio da distribuição dos
agentes químicos do organismo, já que, em verdade, cada um de nós tem
determinada farmácia na sua própria vida íntima. Adquirindo culpas intensas e
profundas, é muito natural que e criatura renasça com problemas de
esquizofrenia, mas acreditamos que a Ciência, mais tarde, segundo a necessária
permissão do Alto, sanará perfeitamente a moléstia em descobrindo, com o amparo
da Misericórdia Divina, o caminho para restabelecer o nível de distribuição das
substâncias químicas no cérebro enfermiço, para que essa distribuição atinja a
circulação desejável.
NECESSIDADE DO ESTUDO
P – Quanto ao estudo, que dizem os nossos Benfeitores Espirituais?
CX – Os amigos espirituais nos
informam que o estudo deve ser para nós uma obrigação, em qualquer idade ou
circunstância da vida. Muitas vezes, quando na infância ou na juventude,
somos constrangidos a estudar e sentimos muita dificuldade em observar as
disciplinas estabelecidas, seja por nossos pais ou professores, tutores ou
amigos. Às vezes, fugimos de aula, desertamos do dever estudantil, mas com o
tempo, se observamos a vida dentro da realidade que lhe é própria, quando
entramos na condição de adultos somos induzidos a estudar voluntariamente
porque sabemos que o estudo é a luz no coração do espírito. Na
ignorância não conseguiríamos, como não conseguiremos, enxergar o caminho real
que Deus traçou a cada um de nós na Terra. Todos nós, sejamos crianças ou
jovens, adultos ou já muitíssimos maduros, devemos estudar sempre.
ESPIRITISMO NO MUNDO ATUAL
P – Como situarmos, querido Chico, Espiritismo no panorama atual?
CX – O Espiritismo no panorama atual do
mundo, é realmente aquele Consolador Prometido por Jesus à Humanidade, porque
quantos dele se aproximam com sinceridade e com devotamento à verdade,
encontram recursos para a resistência intima contra qualquer perturbação. Nós
estamos vivendo no mundo uma época muito difícil, um período inçado de muitos
obstáculos na vida espiritual de todos, porque a renovação está chegando para
todos na Terra, à maneira de explosão: explosão de sentimentos, de
pensamentos, de palavras, de ações; e sem a explicação do Espiritismo
evangélico, que coloca em nosso coração e em nosso pensamento os termos do
destino e do sofrimento no lugar justo, sinceramente – nós teríamos muita
dificuldade para harmonizar o nosso próprio mundo íntimo. Por isto mesmo nós
consideramos que o Espiritismo no panorama atual da Humanidade é uma
providência da Divina Misericórdia do Senhor a nosso benefício, a fim de que
cada um de nós esteja no lugar certo, com as obrigações certas e desempenhando
os nossos deveres tão bem quanto nos seja possível.