segunda-feira, 28 de setembro de 2026

 

Uma prova do Céu

 

Eu preciso estar disposto a desistir do que sou                                    para me tornar o que serei.

Albert Einstein (1879-1955)

 

Inexplicavelmente, no meu pobre entendimento, certo dia, colaborando da organização da biblioteca da Casa Espírita que frequento desde os meus verdes quinze anos de idade, deparei em minhas mãos com um livro chamado “Uma prova do Céu” (2013).

Achei o título muito sugestivo e intrigante, pois o autor era um neurocirurgião americano e como muitos de sua área de atuação, segundo o conhecimento popular, nada dado às questões de cunho religioso ou espiritual.

Até por esta razão, me sentei um pouco e resolvi folhear rapidamente algumas páginas da obra, em razão de estar muito ocupado no momento. Entretanto, à medida que lia pequenos trechos em capítulos que se me desdobravam à vista com títulos sugestivos, fui ficando cada vez mais preso à leitura, até bater os olhos em uma frase do Dr. Raymond Moody Jr. que dizia:

“A experiência de quase morte do Dr. Eben Alexander é a mais impressionante que já ouvi nas mais de quatro décadas de estudo sobre este fenômeno”

O termo "Experiência de Quase Morte (EQM)" embora tenha sido proposto pelo psicólogo francês Victor Egger em 1896, se popularizou em razão das pesquisas do psiquiatra e parapsicólogo norte-americano Raymond Moody Jr., principalmente por seu trabalho no best seller “Vida depois da Vida” (1975).

Então, resolvi ler o livro sobre a experiência do Dr. Eben.

Caro leitor, pense num livro de empolgante leitura para ser devorado, em que você se depara com a experiência de quase morte (EQM) vivida por um neurocirurgião, com mais de 25 anos de profissão em dois hospitais e na Harvard Medical School em Boston.

Eben Alexander III, tendo nascido em 1953 em Charlotte, Carolina do Norte, Estados Unidos da América, no ano de 2008, aos 55 anos de idade, foi acometido de meningite bacteriana aguda, uma doença cerebral rara, onde menos de um em cada 10 milhões de adultos por ano é afetado.

Essa enfermidade o levou ao coma induzido por sete dias. Um diagnóstico certo que normalmente causa morte ou estado vegetativo, mas para Eben a história teve um curso diferente. Enquanto os médicos, seus amigos, tentavam controlar a doença e salvar-lhe a vida, algo extraordinário aconteceu.

Após viver esta condição, da qual ele se acostumara a lidar em seus pacientes, o doutor resolveu registrar tudo em um livro, chamado Uma prova do Céu – a jornada de um neurocirurgião à vida após a morte. Embora tenha sido criticado e refutado por alguns cientistas e pesquisadores da área, o livro foi incluído na lista de Best Sellers do The New York Times por 97 semanas.

Muitos cientistas não aceitaram as alegações do autor que, mesmo em coma, afirma que ele possuía consciência.

Para conhecimento dos nossos leitores, atualmente, as duas principais teorias científicas sobre a origem da consciência são:

- a Teoria do Espaço de Trabalho Neuronal Global (GNWT), que propõe que a consciência emerge nas regiões frontais do cérebro; e

- a Teoria da Informação Integrada (IIT), que sugere que a consciência resulta da integração de informações entre várias partes do cérebro.

Entretanto, uma pesquisa mais recente publicada na revista Nature de 2025, contraria as duas teorias citadas, e defende que a consciência pode não se originar nas regiões frontais do cérebro, associadas à inteligência e tomada de decisões, mas sim nas áreas posteriores, responsáveis pelo processamento sensorial, como visão e audição.

Como espírita, sei que a Consciência não se enraíza no órgão cerebral. Sua definição, porém, é muito difícil e as palavras humanas são insuficientes. Emmanuel, no livro Pensamento e Vida, pela psicografia de Chico Xavier, a define como espelho da vida.

Deve-se enfatizar que o Dr. Eben era um cético, cuja visão sobre algo além da vida física, semelhante à da imensa maioria dos cientistas, se reflete nesta sua fala no livro:

“A neurociência moderna postula que o cérebro comanda a consciência – ou a mente, a alma, o espírito, ou como quer que se chame essa parte invisível e intangível de nosso ser que nos faz ser quem somos – e eu não tinha dúvida de que a neurociência estava certa.”

E acrescenta:

“Quanto mais velho eu ficava, menos provável isso se tornava. Como o mar avançando pouco a pouco sobre a praia, ao longo do tempo minha visão científica do mundo minava lentamente minha capacidade de crer em algo maior, como a Fé ou um Deus.”

 

Esse tipo de abordagem, segundo o autor, deixava muito pouco espaço para a alma e o espírito, para a continuação da existência depois que o cérebro para de funcionar. E deixava menos espaço ainda para aquelas palavras que, segundo o autor, sempre ouvia na igreja: vida eterna.

Quando, após sete dias em coma, o Dr. Eben avaliou sua rápida e impressionante normal recuperação de um estrago total quase certo, pois a meningite bacteriana era a enfermidade perfeita para aniquilar seu córtex cerebral – ele teve que levar a sério a possibilidade de que tudo que havia vivenciado, durante o período do coma, tinha acontecido por alguma razão. No seu entender, um verdadeiro milagre havia sucedido e como cientista e profundo respeitador do método científico, mas também como paciente que teve uma recuperação inexplicável, achava-se na obrigação de contar sua história. Assim surgiu o livro do Dr. Eben.

De nosso interesse, será relatar alguns trechos da obra que, sem dúvida, nos remetem aos conhecimentos que o Espiritismo nos ensina. A respeito do lugar onde ele afirma ter estado, enquanto no estado de coma, são muito interessantes para nossa análise, sob o ponto de vista espiritual.

Diz que esteve em um mundo subterrâneo:

“um lugar de escuridão, mas uma escuridão visível – como estar submerso na lama, mas ainda assim poder ver através dela. Gelatina escura talvez seja a melhor descrição: transparente, mas turva, embaçada, claustrofóbica e sufocante. Consciência, mas consciência sem memória nem identidade – como um sonho em que você sabe o que está acontecendo em volta, mas não tem ideia de quem ou o que você é.”

Panoramas muito semelhantes a este, encontraremos em diversas obras espíritas que descrevem regiões que o espírito pode encontrar após o desencarne e mesmo estando encarnado, em situações especiais como o “coma” vivido pelo autor.

Faz-nos lembrar da obra Nosso Lar, obra maravilhosa, pelo espírito André Luiz, psicografada por Chico Xavier, que fornece detalhes de regiões trevosas.

Sobre a noção de tempo, enquanto lá se encontrava ele afirma:

“Há quanto tempo habito este mundo? Não tenho ideia. Quando se está num lugar onde não há noção de tempo da maneira como o experimentamos, descrever com precisão o que se sente é quase impossível. Quando estava acontecendo, quando eu estava lá, me sentia como se sempre tivesse estado naquele lugar e sempre continuaria a estar.”

Continua em sua descrição fazendo que eu me recordasse, uma vez mais, dos registros feitos por André Luiz no livro Nosso Lar:

“Caras grotescas de animais borbulhavam na lama, grunhiam, guinchavam e desapareciam de novo. Escutei urros medonhos. Algumas vezes, esses urros e grunhidos davam lugar a cânticos rítmicos e obscuros que eram, ao mesmo tempo, assustadores e curiosamente conhecidos.”

Sobre o cheiro que sentia, ele afirma:

“Tomei consciência de um odor: era uma mistura de cheiro de fezes, sangue e vômito. Em outras palavras, um cheiro biológico, porém de morte, não de vida.”

Quando ele consegue sair deste escuro local, que ele resolveu chamar de Região do Ponto de Vista da Minhoca, que para nós seria semelhante a uma região trevosa com dor e sofrimento, adentrou em um mundo diferente e belo, resumidamente, descrevendo-o:

“Eu estava voando. Havia uma campina. Ela era verde, exuberante e parecia feita de terra. Era de terra... mas ao mesmo tempo não era. Passei por árvores e campos, rios e cachoeiras, e avistei pessoas aqui e ali. Também havia crianças rindo e brincando. Todos cantavam e dançavam em círculos, e vi até cachorros correndo e saltando entre elas, igualmente tomados de alegria. As pessoas vestiam roupas simples, mas bonitas, e tive a impressão de que as cores dessas vestimentas tinham o mesmo tom vívido das árvores e das flores que desabrochavam e encantavam todo o campo ao redor.”

Descrições assim são comuns nas obras de André Luiz, psicografadas por Chico Xavier, pena que o Dr. Eben ainda não teve contato com elas, pois, ainda hoje, se encontra encarnado.  

O neurocirurgião apresenta alguns seres que ele vislumbrou, fazendo-me recordar de algumas descrições de Maria João de Deus, no excelente Cartas de uma Morta, segundo livro da psicografia de Chico Xavier:

Mais alto que as nuvens – imensuravelmente mais alto –, em um aglomerado de esferas transparentes, seres deslumbrantes se deslocavam em arco por todo o céu, deixando grandes rastros atrás de si. Pássaros? Anjos? Estas palavras me ocorreram quando eu escrevia minhas recordações, mas nenhuma delas faz jus àqueles seres, que eram muito diferentes de qualquer coisa que eu tivesse conhecido neste planeta. Eles eram mais evoluídos. Superiores.

Ele afirma ter conseguido contato com um ser que designa com o nome de “Om” e diz:

A “voz” desse Ser era cálida e pessoal – por mais estranho que isso possa soar. Ele entendia os humanos, possuía as qualidades que nós possuímos, só que numa escala muito maior. Ele me conhecia profundamente e transbordava virtudes que sempre associei aos seres humanos: afeto, compaixão, emoção... até mesmo ironia e humor. Por meio da Órbita, Om me disse que não existe apenas um Universo, mas muitos – na verdade, mais do que eu poderia conceber –, e que o amor está no centro de todos eles.

Por incrível que possa parecer, em um dos interessantes capítulos do livro, o Dr. Eben fala, diferente do que pensa a Ciência contemporânea, sobre o cérebro ser nada mais que um órgão intermediário e não produtor da consciência, assim como, aborda o conceito sobre o esquecimento a que o espírito é submetido para auxiliá-lo enquanto encarnado. Vejamos:

“Para compreender como o cérebro pode bloquear nosso acesso ao conhecimento dos mundos mais elevados, precisamos aceitar – pelo menos hipoteticamente – que o cérebro não produz consciência. Que ele é, na verdade, um tipo de válvula redutora ou um filtro que transforma a consciência não física que possuímos nas dimensões superiores em uma aptidão limitada pelo tempo de nossa existência mortal.”

Sobre o esquecimento, Dr. Eben, não poderia ser mais claro e conforme aprendemos na Doutrina Espírita:

“Quando o cérebro trabalha duro para filtrar a enxurrada de informações sensoriais que chega até nós do ambiente que nos rodeia, selecionando o material de que precisamos para sobreviver, é o esquecimento de nossas identidades não terrenas que nos permite estar “aqui e agora” de maneira muito mais eficiente. Como a maior parte de nossa vida contém milhares de informações que precisamos processar, estar excessivamente consciente dos mundos, além deste, atrapalharia ainda mais o nosso progresso.”

 

Finalizando, diria que, contra todas as expectativas médicas, ele se recuperou totalmente, sem nenhuma sequela neurológica, e voltou com memórias vívidas do plano espiritual, vivenciando experiências que o fizeram compreender a ligação profunda entre o universo e o divino.

Confesso que foi muito interessante conhecer o instigante e emocionante relato do Dr. Eben, pois correlacionei muitas das suas descrições com os conhecimentos que a Doutrina Espírita nos oferece sobre a vida após a morte. A leitura nos enche de um alento muito grande por se tratar de um reconhecido profissional do campo da medicina, o qual antes do episódio, era um cético total, e que precisou vivenciar o “impossível” para mudar de opinião.

Bem, indiferente a estas questões que o tempo há de esclarecer no devido momento, sugiro a todos conhecerem a história do Dr. Eben. A sensação é que dá a muitos, permissão para acreditar numa verdade confortante e profunda: que nosso ser espiritual eterno é mais verdadeiro do que qualquer coisa que possamos perceber no domínio físico e possui uma conexão direta com o infinito amor do Criador.

 

(*) Todos os grifos são meus.

 

Referências

(1) Eber Alexander III. Uma prova do Céu. Editora Sextante. 186p, 2013.

(2) Cogitate Consortium; Ferrante O, Gorska-Klimowska U, Henin S, Hirschhorn R, Khalaf A, Lepauvre A, Liu L, Richter D, Vidal Y, Bonacchi N, Brown T, Sripad P, Armendariz M, Bendtz K, Ghafari T, Hetenyi D, Jeschke J, Kozma C, Mazumder DR, Montenegro S, Seedat A, Sharafeldin A, Yang S, Baillet S, Chalmers DJ, Cichy RM, Fallon F, Panagiotaropoulos TI, Blumenfeld H, de Lange FP, Devore S, Jensen O, Kreiman G, Luo H, Boly M, Dehaene S, Koch C, Tononi G, Pitts M, Mudrik L, Melloni L. Adversarial testing of global neuronal workspace and integrated information theories of consciousness. Nature. 2025 Jun;642(8066):133-142. doi: 10.1038/s41586-025-08888-1. Epub 2025 Apr 30. PMID: 40307561; PMCID: PMC12137136.

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