O Tempo
e o valor essencial do aproveitamento justo.
Às vezes penso que tenho
desperdiçado muito meu precioso tempo.
Hã! Quem dera fosse meu. O
tempo não pertence a ninguém. Ele é Divino, portanto, é de Deus.
O tempo, entendido como
elaboração ou construção subjetiva encontra em Santo Agostinho e Kant, seus
mais ilustres teóricos, vastas definições.
Santo Agostinho dizia ser
muito difícil discorrer sobre o tempo e o desenvolve como subjetivo, isto é,
como a maneira (humana) de se relacionar com as coisas que passaram, passam e
passarão.
Diz o filósofo que é Deus
mesmo o criador do tempo e "não houve tempo nenhum em que não
fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo" (Santo
Agostinho, 1987, p.217). Quando se interroga sobre o que seria tempo, discorre
sobre a questão da seguinte forma:
“Quem poderá explicá-lo clara
e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois
nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais
batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos
o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O
que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser
explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. (Santo Agostinho, 1987, p.218)”
Para Immanuel Kant, o tempo é
homogêneo, subjetivo e uma forma pura da intuição. O tempo não existe fora do
espírito, isto é, constitui-se como uma forma de representação a priori da
mente humana, sem a qual os objetos não seriam organizados numa ordem e
sucessão.
Afora essas concepções
filosóficas, vivendo sobre a Terra quase sempre nos distraímos com problemas
inúteis que, em sua maioria, criamos para nós próprios. Assim passa uma semana,
um mês, um ano e quando abrimos os olhos, enxergamos que, em termos
espirituais, nada ou muito pouco saímos do lugar.
Quando criança a ideia de
tempo era que tudo demorava muito pra acontecer, para chegar. A criança
desconhece o valor do tempo, ou talvez, aproveita-o melhor que o adulto, na sua
concepção do que seja indispensável. Os anos, os meses pareciam infindáveis. De
um Natal para o outro parecia um século!
Hoje é um piscar de olhos.
Tudo é rápido, veloz, pra ontem.
Como nunca, agora, no
entardecer da existência, percebo que a vida na Terra tem passado muito
depressa. Talvez em meus verdes anos, que ficaram no tempo passado, viver era
mais valioso que sobreviver. Hoje, sobreviver, nos abstruí a visão de quase
tudo. Isto, acho, altera a noção deste tesouro divino.
Aquele que procura viver sente,
em sua alma, o tempo e este não se torna pesado. Quem somente sobrevive, não
tem tempo pra nada. No fim, não vê a vida passar. Parece que o tempo foge,
aterrorizando a sensação de que não haverá tempo para tudo que almejamos fazer.
A semana é reduzida para o que
nos cabe fazer.
Se o tempo é implacável,
destrutivo e o grande ladrão da beleza, como dizia Shakespeare, é também um grande
professor, que na didática silenciosa dele mesmo, coloca as coisas no lugar e
ensina sem ferir.
Se rouba a beleza corpórea, o
tempo é capaz de lapidar a alma que deseja ser lapidada e a embeleza,
magnífica. Seu formol pontiagudo são as quase infinitas experiências da vida,
as quais, vão pouco a pouco, despertando as faculdades da mente.
Em Nosso Lar
encontramos, na fala de Tobias, sobre bem utilizar o tempo somado à dedicação
espiritual:
“Há servidores que, depois de
quarenta anos de atividade especial, dela se retiram com a mesma insipiência da
primeira hora, provando que gastaram tempo sem empregar dedicação espiritual,
assim como existem homens que, atingindo cem anos de existência, dela saem com
a mesma ignorância da idade infantil. Tanto é precioso o conceito de sua
mamãe – disse Tobias – que basta lembrar as horas dos homens bons e dos maus.
Nos primeiros, transformam-se em celeiros de bênçãos do Eterno; nos segundos,
em látegos de tormento e remorso, como se fossem entes malditos. Cada filho
acerta contas com o Pai, conforme o emprego da oportunidade, ou segundo suas
obras.”
Para
estes, o tempo passou e nem perceberam.
Emmanuel,
no livro Ceifa de Luz, embora sem querer defini-lo, destaca o caráter
mais importante do tempo: o tempo que se perde e que nunca retornará.
“Na caminhada humana, afetos e
haveres, oportunidades e valores, lições e talentos voltam, de algum modo, às
nossas mãos, através das reencarnações incessantes, mas a hora perdida é um
dom de Deus que não mais voltará.”
Por
milênios temos sido viajores do tempo, sem a devida maturidade para melhor
utilizá-lo. Chega! É hora de acordar e empregar o tempo diariamente de todas as
maneiras que nos faça crescer como seres humanos que somos, burilando nossa
espiritualidade.
O tempo inutilmente
empregado é, de fato, uma perda irremediável.
O inolvidável médium mineiro,
Chico Xavier no livro O Evangelho de Chico Xavier, também faz coro nos
informando da maior queixa que tem ouvido de espíritas desencarnados:
“dos companheiros espíritas
desencarnados que tenho visto, nenhum está satisfeito consigo mesmo, todos
eles têm se queixado da sua falta de empenho no melhor aproveitamento do tempo.”
Pelo que vimos, o negócio é
não perder tempo à toa!
E não adiante o homem rogar mais
tempo à vida, porque por certo ela responderá:
- O
teu tempo já foi, agora é muito tarde!
E o tempo pedindo contas ao
homem, passará a recolher as folhas esparsas dos dias com suas experiências mal
aproveitadas.
Todos os grifos são meus!
Referências:
(1) Santo Agostinho. Confissões São
Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores).
(2) Kant, I. Crítica
da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores).
(4) Emmanuel. Ceifa de Luz. Psicografado
por Francisco Cândido Xavier. 1ª ed. Rio de Janeiro. Editora FEB, 1979. 151p.
(5) Baccelli, Carlos A. O Evangelho de Chico Xavier. 1ª ed.
Casa Editora Espírita Pierre Paul Didier, 2000. 171p.
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