segunda-feira, 8 de junho de 2026

 

O Tempo e o valor essencial do aproveitamento justo.

 

Às vezes penso que tenho desperdiçado muito meu precioso tempo.

Hã! Quem dera fosse meu. O tempo não pertence a ninguém. Ele é Divino, portanto, é de Deus.

O tempo, entendido como elaboração ou construção subjetiva encontra em Santo Agostinho e Kant, seus mais ilustres teóricos, vastas definições.

Santo Agostinho dizia ser muito difícil discorrer sobre o tempo e o desenvolve como subjetivo, isto é, como a maneira (humana) de se relacionar com as coisas que passaram, passam e passarão.

Diz o filósofo que é Deus mesmo o criador do tempo e "não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma coisa, pois fazíeis o próprio tempo" (Santo Agostinho, 1987, p.217). Quando se interroga sobre o que seria tempo, discorre sobre a questão da seguinte forma:

“Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. (Santo Agostinho, 1987, p.218)”

Para Immanuel Kant, o tempo é homogêneo, subjetivo e uma forma pura da intuição. O tempo não existe fora do espírito, isto é, constitui-se como uma forma de representação a priori da mente humana, sem a qual os objetos não seriam organizados numa ordem e sucessão.

Afora essas concepções filosóficas, vivendo sobre a Terra quase sempre nos distraímos com problemas inúteis que, em sua maioria, criamos para nós próprios. Assim passa uma semana, um mês, um ano e quando abrimos os olhos, enxergamos que, em termos espirituais, nada ou muito pouco saímos do lugar.

Quando criança a ideia de tempo era que tudo demorava muito pra acontecer, para chegar. A criança desconhece o valor do tempo, ou talvez, aproveita-o melhor que o adulto, na sua concepção do que seja indispensável. Os anos, os meses pareciam infindáveis. De um Natal para o outro parecia um século!

Hoje é um piscar de olhos. Tudo é rápido, veloz, pra ontem.

Como nunca, agora, no entardecer da existência, percebo que a vida na Terra tem passado muito depressa. Talvez em meus verdes anos, que ficaram no tempo passado, viver era mais valioso que sobreviver. Hoje, sobreviver, nos abstruí a visão de quase tudo. Isto, acho, altera a noção deste tesouro divino.

Aquele que procura viver sente, em sua alma, o tempo e este não se torna pesado. Quem somente sobrevive, não tem tempo pra nada. No fim, não vê a vida passar. Parece que o tempo foge, aterrorizando a sensação de que não haverá tempo para tudo que almejamos fazer.

A semana é reduzida para o que nos cabe fazer.

Se o tempo é implacável, destrutivo e o grande ladrão da beleza, como dizia Shakespeare, é também um grande professor, que na didática silenciosa dele mesmo, coloca as coisas no lugar e ensina sem ferir.

Se rouba a beleza corpórea, o tempo é capaz de lapidar a alma que deseja ser lapidada e a embeleza, magnífica. Seu formol pontiagudo são as quase infinitas experiências da vida, as quais, vão pouco a pouco, despertando as faculdades da mente.

Em Nosso Lar encontramos, na fala de Tobias, sobre bem utilizar o tempo somado à dedicação espiritual:

“Há servidores que, depois de quarenta anos de atividade especial, dela se retiram com a mesma insipiência da primeira hora, provando que gastaram tempo sem empregar dedicação espiritual, assim como existem homens que, atingindo cem anos de existência, dela saem com a mesma ignorância da idade infantil. Tanto é precioso o conceito de sua mamãe – disse Tobias – que basta lembrar as horas dos homens bons e dos maus. Nos primeiros, transformam-se em celeiros de bênçãos do Eterno; nos segundos, em látegos de tormento e remorso, como se fossem entes malditos. Cada filho acerta contas com o Pai, conforme o emprego da oportunidade, ou segundo suas obras.”

Para estes, o tempo passou e nem perceberam.

Emmanuel, no livro Ceifa de Luz, embora sem querer defini-lo, destaca o caráter mais importante do tempo: o tempo que se perde e que nunca retornará.

“Na caminhada humana, afetos e haveres, oportunidades e valores, lições e talentos voltam, de algum modo, às nossas mãos, através das reencarnações incessantes, mas a hora perdida é um dom de Deus que não mais voltará.”

Por milênios temos sido viajores do tempo, sem a devida maturidade para melhor utilizá-lo. Chega! É hora de acordar e empregar o tempo diariamente de todas as maneiras que nos faça crescer como seres humanos que somos, burilando nossa espiritualidade.

O tempo inutilmente empregado é, de fato, uma perda irremediável.

O inolvidável médium mineiro, Chico Xavier no livro O Evangelho de Chico Xavier, também faz coro nos informando da maior queixa que tem ouvido de espíritas desencarnados:

“dos companheiros espíritas desencarnados que tenho visto, nenhum está satisfeito consigo mesmo, todos eles têm se queixado da sua falta de empenho no melhor aproveitamento do tempo.

Pelo que vimos, o negócio é não perder tempo à toa!

E não adiante o homem rogar mais tempo à vida, porque por certo ela responderá:

- O teu tempo já foi, agora é muito tarde!

E o tempo pedindo contas ao homem, passará a recolher as folhas esparsas dos dias com suas experiências mal aproveitadas.

 

Todos os grifos são meus!

Referências:

(1) Santo Agostinho. Confissões São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores).

(2) Kant, I. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores).

(3) Luiz, André. Nosso Lar. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 45ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 281p.

(4) Emmanuel. Ceifa de Luz. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1ª ed. Rio de Janeiro. Editora FEB, 1979. 151p.

(5) Baccelli, Carlos A. O Evangelho de Chico Xavier. 1ª ed. Casa Editora Espírita Pierre Paul Didier, 2000. 171p.

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