segunda-feira, 25 de maio de 2026

 

Kardec e as fases do Espiritismo

Na edição de dezembro de 1863 da Revista Espírita, Allan Kardec publicou um estudo histórico e profético detalhando a evolução do Espiritismo em seis períodos sucessivos, englobando desde a fase dos fenômenos físico iniciais até o seu objetivo final de transformação moral da humanidade.

Interessante que na mesma Revista Espírita, porém cinco anos antes, no ano de 1858, na edição do mês de Setembro, Kardec se refere a quatro fases, ou períodos distintos, na propagação do Espiritismo. São elas:

1.º ─ O da curiosidadeno qual os Espíritos batedores representaram o papel principal, visando chamar a atenção e preparar os caminhos.

2.º O da observação, no qual entramos, e que também pode ser chamado de período filosófico. O Espiritismo é aprofundado e se depura; tende para a unidade de doutrina e se constitui em Ciência.

E virão a seguir:

3.º ─ O período de admissãono qual o Espiritismo ocupará um lugar oficial entre as crenças universalmente reconhecidas.

4.º ─ O período de influência sobre a ordem socialEntão, sob a influência dessas ideias, a Humanidade conquistará um novo perfil moral. Essa influência é, desde já, individual. Mais tarde recairá sobre a coletividade, para felicidade geral.

É interessante notar, caro leitor, que cinco anos mais tarde, em 1863, Kardec demonstrando o dinamismo da Doutrina Espírita e o amadurecimento fruto do contato frequente com os espíritos superiores, assim como a publicação das obras básicas lhes proporcionaram ao ponto de ampliar os conceitos exarados em 1858 sobre a propagação da nossa querida Doutrina.

Assim, os seis períodos estruturados por Allan Kardec e publicados na Revista no ano de 1863 são:

1. Período da Curiosidade: marcado pelas "mesas girantes" e fenômenos físicos. Serviu para despertar a atenção pública e provar a existência dos Espíritos. Pode-se e deve considerar não somente os fenômenos físicos ocorridos na Europa, como também os observados a partir do mês de março de 1848, mais especificamente, dia 31, com o caso de Hydesville (EUA), envolvendo as irmãs Fox, explodindo, em seguida com as famosas mesas girantes, atraindo um público, em sua esmagadora maioria, despreocupados quanto aos significados que, destes “estranhos” fenômenos, poderiam emergir.

Para uns foi objeto de curiosidade passageira, um divertimento que se punha de lado como um brinquedo, para tomar um outro. Para muitos não encontrou senão indiferença e para grande número, a incredulidade.

Não nos surpreendamos. Eu perguntaria: o próprio Jesus convenceu o povo judeu com os seus milagres? Não foi ele tratado como um impostor? A sublimidade de seus ensinos e lições conquistaram-lhe graça perante as maiores autoridades da época? As curas, que obedecendo a leis da natureza, alterando células e tecidos do corpo físico, frente ao olhar límpido dos que as presenciaram, muito pouco modificou o íntimo dos próprios beneficiados. Para a maioria, os fenômenos de cura falavam aos olhos e não ao coração.

Vamos ao segundo período:

2. Período Filosófico: teve início com o lançamento de O Livro dos Espíritos em 1857. Desde esse momento em que se elevou à categoria de ciência moral, foi tomado a sério, pois falava ao coração e à inteligência e todos os que o estudavam a fundo e a sério, encontravam nele a solução daquilo que procuravam vagamente em si mesmos. Nesta fase, ainda se inclui a publicação de O Livro dos Médiuns, em 15 de janeiro de 1861, trazendo à lume, instruções práticas e métodos para orientar os agrupamentos mediúnicos a trabalhar com segurança, estabelecendo, desde então, diretrizes de maior segurança aos médiuns e dando a eles cidadania.

Nesta fase, segundo o próprio Kardec, em seis anos (1857-1863), a Doutrina avançou em adeptos muito rapidamente, pois com a difusão das obras já publicadas, passou a esclarecer sobre os verdadeiros interesses da Humanidade.

Nenhuma ideia nova, por mais certa e bela que seja, se implanta instantaneamente no espírito das massas. Todas, sem distinção, encontram oposição. Por que seria o Espiritismo uma exceção à regra geral? Às ideias, como aos frutos, é necessário tempo para amadurecer.

Como afirmava o romancista, poeta e dramaturgo francês Victor Hugo, “Nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”.

3. Período da Luta: Fase de oposição e choques de ideias. Enfrentou o dogmatismo religioso e os detratores da Doutrina. Quando este artigo foi publicado na Revista Espírita em 1863, encontrava-se a doutrina em seu período de luta, como afirma o próprio Kardec:

“Estamos, pois, em pleno período da luta, mas ele não acabou. Vendo a inutilidade do ataque a céu aberto, vai se tentar a guerra subterrânea, que já se organiza e começa; uma calma aparente vai se fazer sentir, mas é a calma precursora da tempestade; mas também, à tempestade, sucede um tempo sereno. Espíritas, sede-o, pois, sem inquietação, porque o resultado não é duvidoso; a luta é necessária, e o seu triunfo não será senão mais brilhante”.

 

4. Período Religioso: o inicio do quarto período se deu no dia 15 de abril de 1864 com a publicação em Paris do “Evangelho Segundo o Espiritismo”. Segundo consta na introdução desta obra, focado nas consequências morais e nos ensinamentos evangélicos. Estabeleceu o Espiritismo não como uma religião de dogmas, mas como fé raciocinada e prática do bem.

Podemos incluir ainda nesta fase, o lançamento do livro O Céu e o Inferno, especialmente tratando e esclarecendo antigos dogmas estabelecidos pela Igreja que definia os destinos dos homens de maneira inexorável, para o Céu ou para o Inferno. Trata-se, desta forma, sem dúvida de uma obra que participa deste quarto período. Assim também, consideramos a última obra do pentateuco, A Gênese, como a finalização desta fase. Lembremos que nesta obra ímpar, Kardec e a espiritualidade superior aborda, com ênfase, a explicação espírita (Lei da Natureza) dos milagres de Jesus. 

5. Período Intermediário: Como consequência natural dos períodos precedentes, esta fase é assinalada como de transição e assimilação dos conceitos apresentados. Trata-se, como não podia ser diferente, de um período um tanto mais prolongado e que requererá o contato das pessoas com os ensinamentos doutrinários para posterior entendimento e compreensão. É razoável acreditar que ainda nesta fase, as lutas poderão aparecer aqui ou ali, principalmente dentro dos próprios núcleos familiares, como asseverou nosso Mestre que não vinha trazer a paz, mas sim a espada.

6. Período da Regeneração Social: é a fase que todos almejamos seja atingida como objetivo final do Espiritismo, ensejando a transformação da Humanidade, baseada no progresso moral, na solidariedade e na fraternidade como também assevera Kardec em seu estudo apresentado em Obras Póstumas sobre as Aristocracias, referindo-se à aristocracia intelecto-moral.

Necessariamente, parte de um entendimento íntimo de cada um que a mudança não pode ser imposta por regras nem leis estabelecidas, enquanto o egoísmo não for superado internamente e todos decidirem livremente pela solidariedade como opção consciente de evolução moral.

Embora este sério e lúcido estudo apresentado por Kardec, convenhamos que estabelecer datas-limites nestas fases finais, seria de grande ingenuidade. Creio que presentemente nos encontramos na fase transitória. E você, caro leitor concorda comigo ou acredita que já avançamos para o período de regeneração social? Eu não acredito.

Tendo Allan Kardec desencarnado em 31 de março de 1869, nos legou a missão de superar a “Fase Intermediária”. Ou seja, Kardec fez, e muito bem a sua parte. Quarenta e um anos depois, regressando como Chico Xavier, deu continuidade e amplitude, trazendo a Doutrina do século dezenove para os séculos vinte e vinte um.

Agora é conosco!

Acautelemo-nos e vigiemos firmemente para que os ingentes esforços dos que nos antecederam nos trabalhos de implantação e afirmação da Doutrina não sejam em vão, criando celeumas que dificultarão, porém, jamais impedirão, que avancemos para a fase da regeneração. Deixemos, portanto de lado as disputas por um “poder ilusório” como querer reviver o que o próprio homem engendrou séculos antes desfigurando o Cristianismo, e nos apeguemos ao convívio fraterno colocando em prática os ensinos e exemplos de Jesus. Somente assim iluminaremos os ainda escuros caminhos que procuramos seguir para nossa redenção espiritual.

Referências:

(1) Kardec, Allan. Revista Espírita. Período de luta. Dezembro de 1863. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004. 519p.

(2) Kardec, Allan. Revista Espírita. Propagação do Espiritismo. Setembro de 1858. 4ª ed.  Brasília. Editora FEB, 2004. 536p.

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