Kardec
e as fases do Espiritismo
Na
edição de dezembro de 1863 da Revista Espírita, Allan Kardec publicou um
estudo histórico e profético detalhando a evolução do Espiritismo em seis
períodos sucessivos, englobando desde a fase dos fenômenos físico iniciais até
o seu objetivo final de transformação moral da humanidade.
Interessante
que na mesma Revista Espírita, porém cinco anos antes, no ano de 1858, na
edição do mês de Setembro, Kardec se refere a quatro fases, ou períodos
distintos, na propagação do Espiritismo. São elas:
1.º ─ O da curiosidade, no
qual os Espíritos batedores representaram o papel principal, visando chamar a
atenção e preparar os caminhos.
2.º ─ O
da observação, no qual entramos, e que também pode
ser chamado de período filosófico. O Espiritismo é aprofundado e se depura;
tende para a unidade de doutrina e se constitui em Ciência.
E virão a seguir:
3.º ─ O período de admissão, no
qual o Espiritismo ocupará um lugar oficial entre as crenças universalmente
reconhecidas.
4.º ─ O período de influência
sobre a ordem social. Então, sob a influência dessas
ideias, a Humanidade conquistará um novo perfil moral. Essa influência é, desde
já, individual. Mais tarde recairá sobre a coletividade, para felicidade geral.
É
interessante notar, caro leitor, que cinco anos mais tarde, em 1863, Kardec
demonstrando o dinamismo da Doutrina Espírita e o amadurecimento fruto do
contato frequente com os espíritos superiores, assim como a publicação das
obras básicas lhes proporcionaram ao ponto de ampliar os conceitos exarados em
1858 sobre a propagação da nossa querida Doutrina.
Assim, os seis períodos
estruturados por Allan Kardec e publicados na Revista no ano de 1863 são:
1. Período da Curiosidade: marcado
pelas "mesas girantes" e fenômenos físicos. Serviu para despertar a
atenção pública e provar a existência dos Espíritos. Pode-se e deve considerar
não somente os fenômenos físicos ocorridos na Europa, como também os observados
a partir do mês de março de 1848, mais especificamente, dia 31, com o caso de
Hydesville (EUA), envolvendo as irmãs Fox, explodindo, em seguida com as
famosas mesas girantes, atraindo um público, em sua esmagadora maioria,
despreocupados quanto aos significados que, destes “estranhos” fenômenos,
poderiam emergir.
Para
uns foi objeto de curiosidade passageira, um divertimento que se punha de lado
como um brinquedo, para tomar um outro. Para muitos não encontrou senão
indiferença e para grande número, a incredulidade.
Não
nos surpreendamos. Eu perguntaria: o próprio Jesus convenceu o povo judeu com
os seus milagres? Não foi ele tratado como um impostor? A sublimidade de seus
ensinos e lições conquistaram-lhe graça perante as maiores autoridades da
época? As curas, que obedecendo a leis da natureza, alterando células e tecidos
do corpo físico, frente ao olhar límpido dos que as presenciaram, muito pouco
modificou o íntimo dos próprios beneficiados. Para a maioria, os fenômenos de
cura falavam aos olhos e não ao coração.
Vamos ao segundo período:
2. Período Filosófico: teve
início com o lançamento de O Livro dos Espíritos em 1857. Desde esse momento
em que se elevou à categoria de ciência moral, foi tomado a sério, pois falava
ao coração e à inteligência e todos os que o estudavam a fundo e a sério,
encontravam nele a solução daquilo que procuravam vagamente em si mesmos. Nesta
fase, ainda se inclui a publicação de O Livro dos Médiuns, em 15 de
janeiro de 1861, trazendo à lume, instruções práticas e métodos para orientar
os agrupamentos mediúnicos a trabalhar com segurança, estabelecendo, desde
então, diretrizes de maior segurança aos médiuns e dando a eles cidadania.
Nesta
fase, segundo o próprio Kardec, em seis anos (1857-1863), a Doutrina avançou em
adeptos muito rapidamente, pois com a difusão das obras já publicadas, passou a
esclarecer sobre os verdadeiros interesses da Humanidade.
Nenhuma
ideia nova, por mais certa e bela que seja, se implanta instantaneamente no
espírito das massas. Todas, sem distinção, encontram oposição. Por que seria o
Espiritismo uma exceção à regra geral? Às ideias, como aos frutos, é necessário
tempo para amadurecer.
Como
afirmava o romancista, poeta e dramaturgo francês Victor Hugo, “Nada é mais
poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”.
3. Período da Luta: Fase
de oposição e choques de ideias. Enfrentou o dogmatismo religioso e os
detratores da Doutrina. Quando este artigo foi publicado na Revista Espírita em
1863, encontrava-se a doutrina em seu período de luta, como afirma o próprio
Kardec:
“Estamos, pois, em pleno
período da luta, mas ele não acabou. Vendo a inutilidade do ataque a céu
aberto, vai se tentar a guerra subterrânea, que já se organiza e começa; uma
calma aparente vai se fazer sentir, mas é a calma precursora da tempestade; mas
também, à tempestade, sucede um tempo sereno. Espíritas, sede-o, pois, sem
inquietação, porque o resultado não é duvidoso; a luta é necessária, e o seu
triunfo não será senão mais brilhante”.
4. Período Religioso: o
inicio do quarto período se deu no dia 15 de abril de 1864 com a publicação em
Paris do “Evangelho Segundo o Espiritismo”. Segundo consta na introdução desta
obra, focado nas consequências morais e nos ensinamentos evangélicos.
Estabeleceu o Espiritismo não como uma religião de dogmas, mas como fé
raciocinada e prática do bem.
Podemos
incluir ainda nesta fase, o lançamento do livro O Céu e o Inferno,
especialmente tratando e esclarecendo antigos dogmas estabelecidos pela Igreja que
definia os destinos dos homens de maneira inexorável, para o Céu ou para o
Inferno. Trata-se, desta forma, sem dúvida de uma obra que participa deste
quarto período. Assim também, consideramos a última obra do pentateuco, A
Gênese, como a finalização desta fase. Lembremos que nesta obra ímpar, Kardec e
a espiritualidade superior aborda, com ênfase, a explicação espírita (Lei da Natureza)
dos milagres de Jesus.
5. Período Intermediário: Como consequência
natural dos períodos precedentes, esta fase é assinalada como de transição e
assimilação dos conceitos apresentados. Trata-se, como não podia ser diferente,
de um período um tanto mais prolongado e que requererá o contato das pessoas
com os ensinamentos doutrinários para posterior entendimento e compreensão. É razoável
acreditar que ainda nesta fase, as lutas poderão aparecer aqui ou ali,
principalmente dentro dos próprios núcleos familiares, como asseverou nosso
Mestre que não vinha trazer a paz, mas sim a espada.
6. Período da Regeneração
Social: é a fase que todos almejamos seja atingida como objetivo
final do Espiritismo, ensejando a transformação da Humanidade, baseada no
progresso moral, na solidariedade e na fraternidade como também assevera Kardec
em seu estudo apresentado em Obras Póstumas sobre as Aristocracias, referindo-se
à aristocracia intelecto-moral.
Necessariamente,
parte de um entendimento íntimo de cada um que a mudança não pode ser imposta
por regras nem leis estabelecidas, enquanto o egoísmo não for superado
internamente e todos decidirem livremente pela solidariedade como opção
consciente de evolução moral.
Embora
este sério e lúcido estudo apresentado por Kardec, convenhamos que estabelecer
datas-limites nestas fases finais, seria de grande ingenuidade. Creio que
presentemente nos encontramos na fase transitória. E você, caro leitor concorda
comigo ou acredita que já avançamos para o período de regeneração social? Eu
não acredito.
Tendo Allan
Kardec desencarnado em 31 de março de 1869, nos legou a missão de superar a
“Fase Intermediária”. Ou seja, Kardec fez, e muito bem a sua parte. Quarenta e
um anos depois, regressando como Chico Xavier, deu continuidade e amplitude,
trazendo a Doutrina do século dezenove para os séculos vinte e vinte um.
Agora é conosco!
Acautelemo-nos
e vigiemos firmemente para que os ingentes esforços dos que nos antecederam nos
trabalhos de implantação e afirmação da Doutrina não sejam em vão, criando
celeumas que dificultarão, porém, jamais impedirão, que avancemos para a fase
da regeneração. Deixemos, portanto de lado as disputas por um “poder ilusório” como
querer reviver o que o próprio homem engendrou séculos antes desfigurando o
Cristianismo, e nos apeguemos ao convívio fraterno colocando em prática os
ensinos e exemplos de Jesus. Somente assim iluminaremos os ainda escuros
caminhos que procuramos seguir para nossa redenção espiritual.
Referências:
(1) Kardec, Allan. Revista
Espírita. Período de luta. Dezembro de 1863. 4ª ed. Brasília. Editora FEB, 2004. 519p.
(2) Kardec, Allan. Revista
Espírita. Propagação do Espiritismo. Setembro de 1858. 4ª ed. Brasília. Editora FEB, 2004. 536p.
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