segunda-feira, 23 de março de 2026

 

Um pedido sui generes

Não há a menor dúvida que nossa existência na Terra normalmente se nos depara com as dificuldades e desafios de todo dia, repleta de acertos e desacertos, de boas e más possibilidades com perspectivas de sadios e enfermos relacionamentos. Considerando este panorama, se antes de reencarnarmos, nos fosse dada a possibilidade se solicitar alguma intercessão a nosso favor quanto aos acontecimentos durante a existência física, normalmente vindo de qualquer ser humano regular, que tipo de solicitação, predominantemente, você acredita que mais ouviríamos? Tenho algumas sugestões: 

- remoção de toda espécie de dificuldade de nossos caminhos;

- somente encontrarmos pessoas amáveis e compreensivas em nossos relacionamentos;

- sermos felizes e prósperos em nosso trabalho profissional;

- não apresentarmos dificuldades de ordem financeira;

- sermos portadores de uma inteligência, no mínimo regular, e por aí afora...

Concordam?

Por outras palavras, cobriríamos os nossos mentores ou anjos da guarda de um sem número de solicitações que nos favorecessem e tornassem a nossa vida como espíritos encarnados tranquila e sem obstáculos. Seria certamente, o retrato de uma vida feliz.

Será?

Costumo pensar, conforme tenho aprendido na Doutrina Espírita que, normalmente, o que acreditamos ser o melhor para nós aqui na Terra, quase sempre nos complica se levarmos em conta, enquanto espíritos imortais, o aspecto espiritual da nossa existência. 

Essa visão acanhada de achar que recebermos o melhor aqui na Terra resultará em uma vida feliz, é a falta de melhor entendimento dos ensinamentos morais do Mestre Jesus, que ao nos ensinar que o Reino dEle não pertencia a este mundo, claramente se referia à Vida Futura.

Aliás, a vida futura, como no-la apresentou Jesus, pode ser considerada como o eixo central de suas eternas lições.

Todo cristão crê na vida futura, porém, a ideia que muitos fazem dela é ainda vaga, incompleta e, por isso mesmo, falsa em diversos pontos.

O Espiritismo, nesse ponto como em vários outros, traz luz aos ensinos do Cristo, e nos apresenta a vida futura como uma realidade material, que os fatos demonstram, porquanto são as próprias almas, que lá residem, que vem descrever sua situação.

Ao contrário dos que enxergam na vida atual, a única razão das ocorrências que nos conduzem cada vez mais a uma vida sem sentido e egoísta, o Espiritismo, mostra que essa vida não passa de um elo no harmonioso conjunto da obra Divina. Logicamente somos levados à entender neste conjunto a solidariedade que conecta todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Caminhamos assim, embora a passos muito lentos, à fraternidade universal.

Reportamo-nos, à título de exemplo, a circunstância vivida por André Luiz na casa da família de Lísias e Dona Laura por ocasião do culto doméstico. Neste capítulo, recheado de preciosas lições, Ricardo, mesmo estando encarnado no período da infância na Terra, é conduzido enquanto dormia, ao seu antigo lar no mundo espiritual para rever seus familiares. Nesta ocasião, ao ser questionado por Judite, uma de suas filhas, no que a família espiritual poderia ser útil a ele enquanto encarnado, somos deparados com um pedido sui generes!

 Ah! Filhos meus, alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minh’alma! Roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra, a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!...

A referida solicitação é de profundo aprendizado para todos nós. Notem que ele não pede que suas dificuldades sejam removidas ou até mesmo atenuadas, pois, para todos que vivem na Terra, elas sempre nos acompanharão. Ele estava plenamente consciente disso.

Ele pede aos familiares para que orem a fim de que “...não disponha de facilidades na Terra...”.

Creio que as facilidades amolentam o espírito, podem gerar seres frágeis e medrosos e, portanto, menos capazes diante das dificuldades.

Sem desejar me aprofundar neste artigo, defendo que todo este contexto é muito relevante na sublime tarefa de educação que cabe aos pais. Se não levarem em conta o de que aqui tratamos, satisfazendo todas as vontades e protegendo em excesso os filhos, estarão formando adultos vulneráveis e cheios de recalques.

(*) Todos os grifos são meus.

Referências

(1) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 410p.

(2) Luiz, André. Nosso Lar. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 45ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 281p.

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