Um
pedido sui generes
Não há a menor dúvida que
nossa existência na Terra normalmente se nos depara com as dificuldades e
desafios de todo dia, repleta de acertos e desacertos, de boas e más
possibilidades com perspectivas de sadios e enfermos relacionamentos.
Considerando este panorama, se antes de reencarnarmos, nos fosse dada a
possibilidade se solicitar alguma intercessão a nosso favor quanto aos
acontecimentos durante a existência física, normalmente vindo de qualquer ser
humano regular, que tipo de solicitação, predominantemente, você acredita que
mais ouviríamos? Tenho algumas sugestões:
- remoção de toda espécie de
dificuldade de nossos caminhos;
- somente encontrarmos pessoas
amáveis e compreensivas em nossos relacionamentos;
- sermos felizes e prósperos
em nosso trabalho profissional;
- não apresentarmos
dificuldades de ordem financeira;
- sermos portadores de uma
inteligência, no mínimo regular, e por aí afora...
Concordam?
Por outras
palavras, cobriríamos os nossos mentores ou anjos da guarda de um sem número de
solicitações que nos favorecessem e tornassem a nossa vida como espíritos
encarnados tranquila e sem obstáculos. Seria certamente, o retrato de uma vida
feliz.
Será?
Costumo
pensar, conforme tenho aprendido na Doutrina Espírita que, normalmente, o que acreditamos
ser o melhor para nós aqui na Terra, quase sempre nos complica se levarmos em
conta, enquanto espíritos imortais, o aspecto espiritual da nossa
existência.
Essa
visão acanhada de achar que recebermos o melhor aqui na Terra resultará em uma
vida feliz, é a falta de melhor entendimento dos ensinamentos morais do Mestre
Jesus, que ao nos ensinar que o Reino dEle não pertencia a este mundo,
claramente se referia à Vida Futura.
Aliás,
a vida futura, como no-la apresentou Jesus, pode ser considerada como o eixo
central de suas eternas lições.
Todo
cristão crê na vida futura, porém, a ideia que muitos fazem dela é ainda vaga,
incompleta e, por isso mesmo, falsa em diversos pontos.
O
Espiritismo, nesse ponto como em vários outros, traz luz aos ensinos do Cristo,
e nos apresenta a vida futura como uma realidade material, que os fatos
demonstram, porquanto são as próprias almas, que lá residem, que vem descrever
sua situação.
Ao
contrário dos que enxergam na vida atual, a única razão das ocorrências que nos
conduzem cada vez mais a uma vida sem sentido e egoísta, o Espiritismo, mostra
que essa vida não passa de um elo no harmonioso conjunto da obra Divina.
Logicamente somos levados à entender neste conjunto a solidariedade que conecta
todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os
seres de todos os mundos. Caminhamos assim, embora a passos muito lentos, à
fraternidade universal.
Reportamo-nos,
à título de exemplo, a circunstância vivida por André Luiz na casa da família
de Lísias e Dona Laura por ocasião do culto doméstico. Neste capítulo, recheado
de preciosas lições, Ricardo, mesmo estando encarnado no período da infância na
Terra, é conduzido enquanto dormia, ao seu antigo lar no mundo espiritual para rever seus
familiares. Nesta ocasião, ao ser questionado por Judite, uma de suas filhas,
no que a família espiritual poderia ser útil a ele enquanto encarnado, somos
deparados com um pedido sui generes!
Ah! Filhos meus, alguma coisa tenho a
pedir-lhes do fundo de minh’alma! Roguem ao Senhor para que eu nunca
disponha de facilidades na Terra, a fim de que a luz da gratidão e do
entendimento permaneça viva em meu espírito!...
A
referida solicitação é de profundo aprendizado para todos nós. Notem que ele
não pede que suas dificuldades sejam removidas ou até mesmo atenuadas, pois,
para todos que vivem na Terra, elas sempre nos acompanharão. Ele estava
plenamente consciente disso.
Ele
pede aos familiares para que orem a fim de que “...não disponha de
facilidades na Terra...”.
Creio
que as facilidades amolentam o espírito, podem gerar seres frágeis e medrosos
e, portanto, menos capazes diante das dificuldades.
Sem
desejar me aprofundar neste artigo, defendo que todo este contexto é muito
relevante na sublime tarefa de educação que cabe aos pais. Se não levarem em
conta o de que aqui tratamos, satisfazendo todas as vontades e protegendo em
excesso os filhos, estarão formando adultos vulneráveis e cheios de recalques.
(*) Todos os grifos são meus.
Referências
(1) Kardec, Allan. O Evangelho
Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131ª ed. Brasília.
Editora FEB, 1944. 410p.
(2) Luiz, André. Nosso Lar. Psicografado
por Francisco Cândido Xavier. 45ª ed. Brasília. Editora FEB, 1944. 281p.
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