segunda-feira, 17 de março de 2025

 

Nossas provas, nossas escolhas?

 

Habitando um planeta de expiações e provas com ampla maioria de espíritos imperfeitos encarnados, concebe-se que possa nos interessar saber como se estabelece, para cada espírito, suas provas e expiações.

Não por outra razão, Allan Kardec estudando a dinâmica da vida espírita dirigiu, aos espíritos superiores no Livro dos Espíritos, algumas questões sobre a escolha das provas e julgo interessante que aprofundemo-nos um pouco mais nesses estudos para melhor compreensão.

Antes, porém, desejo apresentar, para os nossos assíduos e atentos leitores, uma particularidade a respeito da forma como os conceitos e as revelações feitas pelos espíritos superiores a Kardec, bem como suas consequências, foram realizadas. Útil para todos aqueles que estudam ou que pretendem conhecer o espiritismo, está observação muito auxiliará.

Enfaixada em cinco obras básicas, Kardec não pretendeu esgotar todo o assunto nem dizer a última palavra sobre o Espiritismo, como ele mesmo referiu-se em O Evangelho Segundo o Espiritismo por mais de uma vez. Afinal, como ciência do infinito, a doutrina espírita é um conjunto de informações, de ideias, conceitos e revelações os quais, existindo em todas as épocas, dizem respeito ao Criador e sua criação nas mais diversas fases evolutivas desta última.

Aliás, o próprio Jesus, já nos informara que não poderia falar sobre todas as coisas porque nós não suportaríamos, ou seja, não teríamos entendimento para elas. Quase dezenove séculos após a encarnação de Jesus sobre a Terra, não seria, como não foi possível, que a criatura humana, houvera conquistado, neste curto período, toda a ciência e todo o saber a respeito do Universo a fim de poder receber, na sua plenitude, toda a Verdade.

Infelizmente, o que temos visto em relação à nossa capacidade de entendimento e aplicação das lições e dos ensinos de Jesus, é comparável a uma criança que inicia seus primeiros passos na escola infantil.

Quero dizer que, ainda que a doutrina espírita tenha vindo com a função de relembrar conceitos aprendidos, tornar mais claro os ensinos e as lições do Mestre e acrescentar novos ensinamentos, é necessário que aprendamos e saibamos entender os textos espíritas, principalmente para não assumirmos posturas dogmáticas.

 

Vejamos um exemplo na questão 258 de O Livro dos Espíritos para nosso entendimento que, inclusive, versa sobre o assunto da escolha das provas:

 

258. Quando na erraticidade, antes de começar nova existência corporal, tem o Espírito consciência e previsão do que lhe sucederá no curso da vida terrena?

 

R. “Ele próprio escolhe o gênero de provas por que há de passar e nisso consiste o seu livre-arbítrio. ”

 

Claramente a resposta nos induz a raciocinar e a entender que a escolha das provas, às quais passamos na existência terrena, cabe ao próprio espírito fazê-la. O que precisa ser compreendido é que os espíritos apresentaram, como em outras diversas oportunidades na obra da codificação, a informação geral sobre o assunto em pauta, não sendo possível tratar de todas as particularidades e especificações para cada caso, que muitas vezes não eram ou não foram possíveis de serem apresentadas, neste primeiro momento, pelo apóstolo da revelação humana.

E nem que ele quisesse não seria possível, enfeixar, em apenas cinco obras, todo o conhecimento universal para a criatura humana, habitando um planeta de expiações e provas. Daí a coerência do caráter dinâmico da doutrina em seus aspectos científico, filosófico e religioso. 

Continuando o raciocínio, passemos a estudar a pergunta 262 da obra básica referida, que ainda está abordando a temática da escolha das provas, e que segundo deduzimos da questão 258, fica à critério do espírito realizar.

 

262. Como pode o Espírito, que, em sua origem, é simples, ignorante e carecido de experiência, escolher uma existência com conhecimento de causa e ser responsável por essa escolha?

 

R. “Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir(*), como fazeis com a criancinha. Deixa-o, porém, pouco a pouco, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, senhor de proceder a escolha e só então, é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos dos bons Espíritos. A isso é que se pode chamar a queda do homem.

 

O entendimento desta questão 262 parece ser contrária ao que foi afirmado na 258, entretanto, uma melhor análise nos conduz a perceber que se trata, na verdade, de um desdobramento da questão 258.  

A resposta dada pelos espíritos “altera” e confere plena coerência ao entendimento do assunto debatido. Ou seja, nem todos os espíritos apresentam condições mentais e evolutivas para empreender, de forma justa e que lhe propicie mais amplo aproveitamento, a escolha das provas que necessite.

Portanto, não há, como não deve haver, uma liberdade irrestrita e ilimitada aos espíritos no tocante as escolhas das provas, notadamente aos de mente ainda pouco desenvolvida em seu aspecto intelectual e moral. Embora esta liberdade seja um direito a que toda alma possa invocar, somente lhe será concedida quando compreenda o dever e o pratique.

Posteriormente, com o melhor desenvolvimento da razão e do seu entendimento, (e haja reencarnações para tanto) é que, gradualmente, o espírito poderá fazer suas escolhas.

Quando bem analisada, a reflexão sobre este conhecimento traz luz sobre o controvertido aspecto do planejamento reencarnatório, assunto que pretendemos abordar em futuro artigo neste Blog.

Para finalizar de modo brilhante, trazemos a participação de Emmanuel em breve trecho da lição “Escolha de provas”, que consta no livro Nascer e Renascer da psicografia de Chico Xavier.

 

“Assim, além da desencarnação, nem todos desfrutam de improviso a faculdade de escolher o lugar ou a situação em que deva prosseguir no esforço de evolução, porquanto, quase sempre, é imperioso o regresso às sombras da retaguarda para refazer com sofrimento e lágrimas, amargura e sacrifício o ensejo perdido de acesso à luz. Se desejas a marcha vitoriosa para lá dos portais de cinza em que se nos renova a visão espiritual, afeiçoa-te, com perseverança e lealdade, ao próprio dever, dele fazendo o pão espiritual, cada dia, porque para alcançar o triunfo e a elevação de amanhã, é indispensável consagrar-lhes a nossa atenção desde hoje.”

 

Emmanuel, venerável espírito, dando a “dica” de que a escolha das provas e até planejamento reencanratório, de certa forma, a gente faz é hoje, pouco a pouco, através de nossas ações cotidianas.

 

 

(*) Todos os grifos são nossos

 

Referência

(1) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 67ª ed.  Brasília. Editora FEB, 1944. 494p.

(2) Emmanuel. Nascer e Renascer. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1ª ed. Brasília. Editora FEB, 1982. 96 p.

2 comentários:

  1. Lindos ensinamentos! Se por um lado estamos aprisionados a nossa retaguarda de erros. Por outro, temos a oportunidade de resgate e renovação. Todavia, é imperioso trabalharmos agora com as possibilidades que temos, pois será através dela que organizarmos uma nova trajetória para nós, onde obteremos a paz de que tanto necessitamos.

    ResponderExcluir
  2. Isso Tony, sempre adiante. As lições do passado embasando boas realizações no presente.

    ResponderExcluir

  Tríade do barulho. Uma tríade há, que cada vez mais amplia sua frequência aumentando uma triste estatística nos programas de saúde, e po...